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Teocentrismo
História da Igreja Cristã

da Igreja Apostólica até a Igreja Contemporânea


Primeiro Período: A Igreja Apostólica

desde a ascensão de Cristo em 30 d.C. até a morte do apóstolo João em 100 d.C.

A igreja nasce no dia de Pentecoste com o derramamento do Espírito Santo sobre os apóstolos e seguidores de Jesus no ano 30 conforme descrito em At. 2:23-26, logo após Cristo ter ascendido ao céu. Nesse primeiro momento as atividades da igreja limitavam-se a Jerusalém e arreadores e tinha como principais doutrinas definidas: a ressurreição, o Jesus messiânico e a segunda volta de Cristo. A expansão da igreja deu-se muito em função dos seguintes fatos:

1 - as perseguições realizadas pelo Sinédrio (orgão político-religioso judaico) que contribuíram para que membros dispersados da igreja de Jerusalém pregassem o evangelho em Samaria, Damasco, Antioquia da síria, etc;

2 - as viagens missionários de Paulo que levaram o evangelho aos gentios. A primeira viagem de Paulo junto com Barnabé, um dos líderes da igreja de Antioquia da Síria, ocorreu nos anos 46-48 e levou a palavra de Deus para Chipre e Galácia na Ásia Menor visitando as cidades de Perge, Antioquia da Pisídia, Icônio, Lista e Derbe. A segunda viagem entre 49-52 foi acompanhada de Silas e teve como foco as igrejas formadas na primeira viagem na Ásia Menor, as cidades de Filipos, Tessalônia e Beréia na Macedônia e Corinto e Atenas na Acaia, atual Grécia. A terceira viagem realizou-se entre 52-57. Nessa viagem Paulo revisitou as igrejas da Galácia, ficou em Éfeso por mais de 2 anos e depois passou pela igrejas da Macedônia e Acaia. Ainda entre os anos 62-67, Paulo esteve na Espanha, Creta, Mileto, Colossos, Éfeso, Filipos e Roma.

3 - O Concílio de Jerusalém realizado em 49 d.C. com a participação de Pedro, Tiago (irmão de Jesus), Paulo, Barnabé e outros apóstolos e dirigentes definiu que os gentios cristãos não teriam que seguir a lei judaica e isso abriu o espaço que Paulo queria para continuar a obra de divulgação do evangelho de Jesus no mundo gentio com o aval de Jerusalém.

A igreja de Cristo era vista pelas autoridades romanas e pelos judeus como uma seita, um ramo da religião judaica, porém a partir de 70 d.C. com a destruição de Jerusalém pelo general Tito, após os judeus rebelarem-se contra o império romano, essa associação terminou. Os líderes que mais se destacaram nesse período foram Pedro, Tiago, João e Paulo. Tiago que era irmão de Jesus e um dos líderes da Igreja de Jerusalém foi morto no Templo no ano de 62. Pedro foi crucificado em Roma no ano de 67 e Paulo no mesmo ano foi decapitado, ambos morreram no período em que é considerada como a primeira perseguição realizada pelo império romano, sob o governo do imperador Nero que acusou os cristãos de atearem fogo na cidade de Roma. Na época em que se iniciou a segunda perseguição imperial por volta do ano 90 no governo do imperador Domiciano, João foi exilado na Ilha de Patmos. Foi em Patmos que João escreveu o livro de Apocalipse (90-96 d.C.). Provavelmente João morreu no ano 100 d.C., terminando assim a era apostólica da Igreja.


Bibliografia:

Rega, Lourenço Stelio / organizador. Paulo, sua vida e sua presença ontem, hoje e sempre. São Paulo: Editora Vida.
Hurlbut, Jesse Lyman. História da Igreja Cristã. Editora Vida.
Cairns, Earle E. O Cristianismo através dos séculos. Editora Vida Nova.





Segundo Período: A Igreja Perseguida

desde a morte do apóstolo João em 100 d.C. até o Edito de Constantino em 313 d.C.

O período da Igreja perseguida durou até o ano 313 quando foi promulgado o Edito de Constantino que garantiu a liberdade de culto para o cristianismo. Até então os cristãos sofreram com execuções, exílios, prisões, confiscos de bens, etc. O motivo dessas perseguições é formado por elementos políticos, religiosos, sociais e econômicos.

Enquanto o cristianismo esteve associado ao judaísmo como uma seita, o mesmo esteve protegido pelo estado romano, pois o judaísmo era uma das religiões autorizadas pelo império. Porém após o ano 70 d.C. com a destruição de Jerusalém pelo general Tito em função de uma rebelião dos judeus, a igreja cristã ficou desassociada da religião judaica e passou a ser vista como religião ilegal. A religião no império romano só era aceita caso a mesma se enquadrasse dentro da lei romana, ou seja, desde que a prática de cultuar o imperador romano que exigia o oferecimento de incenso em altares fosse cumprida qualquer um poderia ter uma segunda religião. Os cristãos certamente recusavam-se a praticar tais sacrifícios, pois somente a Jesus é devida toda adoração. Somando a essa atitude, os cristãos não participavam das festas oferecidas aos ídolos e eram vistos como anti-sociais e até como ateus por não terem deuses. As reuniões da igreja eram feitas secretamente em cavernas e catacumbas e isso também despertava desconfianças de que os cristãos praticassem algum tipo de religião imoral ou criminosa. A economia baseada na religião também era afetada, pois comerciantes deixavam de vender seus produtos de idolatria em função das conversões cada vez maiores de pessoas para o cristianismo.

As perseguições não foram contínuas, mas aconteceram ora em períodos curtos, ora em períodos longos. Assim podemos citar as perseguições (além das duas já citadas no primeiro período da igreja feitas pelos imperadores Nero e Domiciano) ocorridas no governo do imperador Marco Aurélio (161 a 180), Septímio Severo ( de 202 até 211), Décio ( 249-251), Valeriano em 257 e a última e pior perseguição no governo de Diocleciano e seus sucessores Galério e Constâncio que ocorreu entre os anos de 303 até 310. Foram ordenados a destruição de Bíblias e de Templos. Os cristãos perderam a cidadania romana e consequentemente desamparados pela lei sofreram os martírios romanos. Entretanto em 313, Constantino, filho de Constâncio, expediu o Edito de Tolerância que cessou com as perseguições e permitiu o culto cristão. Constantino acreditava que a liberdade religiosa era o único caminho a ser adotado por um governante.

Nesse período de perseguições pode-se destacar importantes mártires: Simão ( irmão de Jesus Cristo) que sucedeu a Tiago na igreja de Jerusalém foi crucificado em 107 por ordem do governador romano na Palestina. Inácio ( bispo de Antioquia na Síria) morreu no ano de 108 ou 110 jogado às feras no anfiteatro romano. Policarpo (bispo de Esmirna – Ásia Menor) morreu queimado em 155, Justino Mártir foi morto em roma em 166, Cipriano (bispo de Cartago) e Sexto (bispo Romano) foram mortos em 257.

Apesar da perseguições a igreja organizou-se e teve que se defender de uma outra ameaça: as heresias. As principais nesse período foram o gnosticismo, o maniqueísmo, o montanismo, o neoplatonismo, o docetismo, o monarquianismo e o ebionismo.

O Gnosticismo era um movimento que floresceu durante os séculos II e III, cujas bases filosóficas eram as da antiga Gnose (palavra grega que significa conhecimento), com influências do neoplatonismo e dos pitagóricos. Este movimento revindicava a posse de conhecimentos secretos que, segundo eles, os tornava diferentes dos cristãos alheios a este conhecimento. Originou-se provavelmente na Ásia menor, e tem como base as filosofias pagãs, que floresciam na Babilônia, Egito, Síria e Grécia. O gnosticismo combinava alguns elementos da Astrologia e mistérios das religiões gregas, como os mistérios de Elêusis, com as doutrinas do Cristianismo.

O Maniqueísmo foi um misto de filosofia religiosa sincrética e dualística que dividia o mundo entre Bem e Mal sendo a matéria intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom. Foi ensinada pelo profeta persa Mani, combinando elementos do Zoroastrismo, Cristianismo e Gnosticismo.

O Montanismo foi um movimento cristão do segundo século fundado por Montano. Os montanistas declaravam-se possuídos pelo Espírito Santo e, por isso, profetizavam. Segundo estas profecias, uma outra era cristã se iniciava com a chegada da nova revelação concedida a eles. Fez muitas predições proféticas enganosas, pois jamais foram cumpridas. Proibia certos alimentos, exigia jejuns prolongados e não permitia o casamento de viúvas, como também negava o perdão de pecados graves ao novo convertido, mesmo após o batismo(com confissão e arrependimento). Montano queria fundar uma nova ordem e reivindicar seu movimento como sendo um movimento especial na história da salvação. O principal motivo de Montano era lutar contra a paralisia e o intelectualismo estéril da maioria das igrejas organizadas na época. Infelizmente, ele também caiu em extremos enganosos.

O Neoplatonismo foi uma corrente de pensamento iniciada no século III que se baseava nos ensinamentos de Platão e dos platônicos, mas interpretando-os de formas bastante diversificadas. Apesar de muitos neoplatônicos não o admitirem, o neoplatonismo era muito diferente da doutrina platônica. O prefixo neo, inclusive, só foi adicionado pelos estudiosos modernos para distinguir entre os dois, mas na época eles se autodenominavam platônicos. Neoplatonismo é uma forma de monismo idealista. Plotino ensinou a existência de um Uno indescritível do qual emanou como uma sequência de seres menores.

O Docetismo era o nome dado a uma doutrina cristã do século II, considerada herética pela Igreja primitiva, que defendia que o corpo de Jesus Cristo era uma ilusão, e que sua crucificação teria sido apenas aparente.

O Monarquianismo foi uma série de crenças que enfatizam a Unidade Absoluta de Deus. A crença conflita com a doutrina da Trindade, que vê em Deus uma unidade composta pelo Pai, Filho e Espírito Santo. Haviam dois tipos de Monarquianismo: O Modalismo, ou Sabelianismo considerava que Deus é uma pessoa, manifestando-se e operando em diferentes "modos", como Pai, Filho e Espírito Santo. O proponente desta visão foi Sabélio. A crença foi rotulada Patripassianismo por seus oponentes, por subentender que Deus, o Pai, teria sofrido na cruz. O segundo tipo foi o Adocionismo e definia que Deus é um ser, superior a tudo e completamente indivisível, defendendo a idéia de que o Filho não foi co-eterno com o Pai, mas que foi revestido de Deus (adotado) para os seus planos. Diferente versões do Adocionismo divergem quanto à hora da adoção por Deus, como a hora do seu batismo, ou de sua ascensão.

O Ebionismo foi o nome de uma das ramificações do Cristianismo primitivo, que pregava que Jesus de Nazaré não teria vindo abolir a Torá como prega a doutrina paulina. Desta forma, pregavam que tanto judeus como gentios convertidos deveriam seguir os mandamentos da Torá, o que levou a um choque com outras ramificações do Cristianismo e do Judaísmo.Para combater essas heresias entraram em cena os polemistas que junto com outro grupo de teólogos denominados apologistas – estes tinham a incumbência de defender o corpo doutrinal da igreja – lutaram por uma igreja íntegra e pura.

Para combater essas heresias entraram em cena os polemistas que junto com outro grupo de teólogos denominados apologistas – estes tinham a incumbência de defender o corpo doutrinal da igreja – lutaram por uma igreja íntegra e pura.

O foco dos apologistas era a ameaça externa, ou seja, o estereótipo que se dava aos cristãos, que eram acusados das mais variadas formas: de incesto ( todos os cristãos se tratavam por irmãos e assim quando o esposo chamava sua mulher de irmã ou o pai chamava a filha da mesma forma, parecia aos ouvidos romanos que estavam praticando atos libidinosos), de canibalismo (na simbologia da Ceia Cristã que come o corpo e bebe o sangue de Cristo) e até na expressão “Crucificação do Cordeiro” que era interpretado literalmente. Para defender o cristianismo dessas idéias, entraram em ação homens como Justino Mártir que escreveu sua primeira apologia ao imperador Antonino Pio em 150, Taciano (discípulo de Justino) escreveu “Discurso ao Heleno”, Atenágoras escreveu “Súplica aos Cristãos” em 177. Teófilo de Antioquia que escreveu “Apologia a Autólico em 180, Tertuliano (160-230) escreveu “Apologeticum” destinada ao governador romano de sua província e Aristides que escreveu sua apologia endereçada ao imperador Antônio em 147.

O foco dos polemistas era a ameaça interna, ou seja, falsos ensinamentos que surgiam no ceio da igreja. Os mais conhecidos são: Irineu (130-200) que escreveu “Adversus Haereses” (“Contra as Heresias”) refutando as doutrinas gnósticas, Clemente de Alexandria (155-225) e suas obras mais conhecidas “Exortação aos Gentios”, “O Pedagogo” e “Seleções”, Orígenes (185-254) que foi aluno de Clemente e escreveu “Hexapla”, “Contra Celso” e “De Principiis” em 230 e considerada a primeira grande obra cristã de teologia sistemática, Hipólito que escreveu “Refutação a todas as Heresias” em 212, novamente Tertuliano que escreveu “Contra Nações” e “Adversus Judaeos” e Cipriano (bispo de Cartago), martirizado em 258, cuja obra mais importante é “Da unidade da Igreja”. Assim termina o segundo período da igreja que mesmo sendo perseguida, atacada, tinha no final desse período no mínimo a décima parte da população.

Bibliografia:

Rega, Lourenço Stelio / organizador. Paulo, sua vida e sua presença ontem, hoje e sempre. São Paulo: Editora Vida.
Hurlbut, Jesse Lyman. História da Igreja Cristã. Editora Vida.
Cairns, Earle E. O Cristianismo através dos séculos. Editora Vida Nova.





Terceiro Período: A Igreja Imperial

desde o Edito de Constantino em 313 d.C. até a queda do Império Romano em 476 d.C

No ano 312, Constantino e Maxêncio estavam disputando o poder do Império Romano e se enfrentaram na ponte Múvia sobre o rio Tibre. Constantino que era favorável aos cristãos saiu vitorioso, mas só assumiu definitivamente a posição de imperador em 323, colocando o cristianismo numa posição que tanto o favoreceu quanto o prejudicou. A fusão império-igreja estabelece um novo período na história do cristianismo nascendo assim a Igreja Imperial. Essa fusão trouxe vários benefícios, porém alguns foram mais malefícios do que benefícios: a morte por crucificação foi abolida por ser a cruz o emblema sagrado dos cristãos; a lutas de gladiadores foram proibidas; o infanticídio (ato de asfixiar ou abandonar crianças que não eram do agrado dos pais) foi extinto, as relações entre escravos e senhores foram melhoradas até serem definitivamente abolidas; a igreja tinha plena liberdade de culto os templos foram restaurados e novos construídos; o dinheiro público passou a ser usado para manter a infra-estrutura da igreja e o clero passou a ter privilégios especiais (estavam isentos dos deveres cívicos, de pagamento de impostos e eram julgados por cortes especiais); o domingo passou a ser dia de descanso. Com tal poder e privilégios não tardou para que todos quisessem ser membros das igreja e esta por sua vez passou a ser contaminada por homens inescrupulosos e ambiciosos.

Constantino em 330 alegando que Roma era ainda uma cidade ligada ao paganismo com seus templos e estátuas de idolatria aos cultos pagãs e considerando que a posição geográfica de Roma a deixava exposta a invasões, fundou então a cidade de Constantinopla (atualmente Istambul) – a nova capital para o Império Romano. O local escolhido fora Bizâncio, um ponto geográfico entre a Europa e a Ásia. Assim o império fortalecia a igreja e a igreja servia ao império. Em 380, Teodósio I promulgou um edito tornando o cristianismo a única religião do estado. Qualquer um que professasse outra religião era punido pelo Estado (como a aplicação da pena de morte e o confisco de bens). O Edito de Constantinopla de 392 proibiu definitivamente as religiões pagãs.

Porém dois fatos começavam a se delinear na história do império e da igreja: As invasões bárbaras e o crescimento do poder do clero romano. Como as fronteiras do império eram muito extensas, sempre havia o perigo de invasões e uma divisão de autoridade fazia-se necessária. Constantino nomeou imperadores aliados e passou a existir dois mundos: O Oriental com capital em Constantinopla chamado de Império Romano do Oriente ou Império Bizantino (em função do antigo nome – Bizâncio - da cidade de Constantinopla) e o Ocidental com base em Roma. A igreja em Roma passou então a ter mais influência e ter menos pressão imperial do que a igreja de Constantinopla que estava diretamente subordinada ao imperador. Os bispos que dirigiam as igrejas eram chamados de “patriarcas”. Existiam assim patriarcas em Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Roma. O bispo de Roma passou a ser chamado de “pai” e posteriormente “papa”. As disputas por poder eram constantes entre os patriarcas, mas acabaram se limitando ao patriarca de Constantinopla e o papa de Roma. Com o tempo o bispo de Roma passou a ser visto pelo Ocidente como a principal autoridade de toda a igreja.

A partir de 337 os bárbaros começaram a invadir as províncias imperiais e iam estabelecendo novos reinos. O império romano enfraquecido por anos de guerras civis e disputas políticas não conseguiu deter tais invasões. As primeiras invasões foram feitas pelos visigodos (godos do Ocidente) que se fixaram na Espanha. Depois vieram os vândalos que ficaram no norte da África. Os lombardos, os borgonheses e os francos se estabeleceram na região que hoje é a França. Os anglo-saxões se fixaram na Inglaterra. No ano de 450, os hunos sob a liderança do rei Átila, invadiram a Itália. Os godos, os vândalos e os francos uniram-se e derrotaram os hunos na batalha de Chalons em 451. Em 476 os hérulos ( originários de uma tribo germânica), conduzidos pelo rei Odoacro, tomaram Roma, destronaram o imperador Augusto O pequeno e estabeleceram um reino na Itália. Terminava assim o Império Romano Ocidental.

Apesar das invasões terem acabado com o império romano, a igreja continuava com sua influência, poder e liderança. Os godos haviam sido cristianizados por Ário, antes mesmo de iniciarem as invasões e as outras tribos bárbaras acabaram se convertendo também ao cristianismo. Porém a igreja cristã acabou se contaminando pois as conversões ocorriam sem haver doutrinamento e assim elementos pagãs foram inseridos dentro da igreja.

No campo teológico pode-se citar a controvérsia chamada Arianismo que foi proposta por Ário (presbítero de Alexandria). Essa heresia afirmava que Jesus era superior à natureza humana, mas inferior a natureza divina, atingindo assim a doutrina da Trindade. Em 325 foi realizado o Concílio de Nicéia para resolver a questão. O principal opositor de Ário foi Atanásio de Alexandria e a doutrina do arianismo foi então condenada. Outra heresia que surgiu chamava-se Apolinarianismo decorrente de seu defensor Apolinário (bispo de Laodicéia no ano 360). Afirmava que Jesus não era homem, mas que a natureza divida tinha tomado lugar da natureza humana de Cristo. Essa doutrina foi condenada no Concílio de Constantinopla no ano de 381, pois para a igreja Jesus é tanto Deus quanto homem. Na questão sobre o pecado e a salvação surgiu o pelagianismo cujo propositor fora Pelágio e que declarava que o homem não herdava o pecado de Adão e que cada um era livre para escolher pecar ou não. Contra essa posição surgiu então Agostinho, um dos maiores teólogos depois do apóstolo Paulo, e sustentava que Adão representava toda a humanidade e portanto todos somos pecadores no pecado de Adão e somos portanto culpados e incapazes de conseguir a salvação por livre escolha, mas que somente pela vontade de Deus somos salvos. Pelágio foi condenado no Concílio de Cartago no ano 418, porém nem todos aceitaram as idéias de Agostinho e até hoje encontramos igrejas baseadas numa ou noutra vertente.

Além de Agostinho, que foi bispo de Hipona e cujas obras mais conhecida são “A Cidade de Deus” e “Confissões”, e Atanásio de Alexandria, pode-se citar também como grandes figuras dessa época: João Crisóstomo que foi bispo de Constantinopla e que por suas atitudes reformadoras foi exilado e morreu no exílio em 407 e Jerônimo (340-420) que foi um estudioso que traduziu a Bíblia para o latim, conhecida como Vulgata Latina e adotada pela Igreja Católica.

No fim desse período temos portanto a seguinte situação: Uma igreja perseguidora do paganismo forçando muitas pessoas a serem cristãs superficialmente, apenas para fugir de tais perseguições. Por outro lado, ostentando tanto poder, muitas pessoas se passavam por cristãs apenas para usufruir de tais privilégios. Com a influência pagã dentro da igreja, logo apareceram os desvios baseados no sincretismo e no ritualismo. A veneração dos santos no lugar da veneração dos heróis e deuses pagãs, a adoração à Maria fortalecida pelas idéias de Clemente, Jerônimo e Tertuliano que afirmaram uma virgindade eterna de Maria, de Agostinho isentando-a de pecado original por ser mãe do Cristo sem pecado e da vida monástica com enfase na virgindade, além da adoração à Maria ser um substituto para a adoração a Vênus e Diana. Por volta do ano 350 a festa do Natal que era a festa dos adoradores de Mitra comemorada pelos romanos no dia 25 de dezembro passou a ser adotada pela Igreja sem os elementos pagãs. A partir do ano 400 a igreja de Roma passou a requerer a autoridade papal sobre os demais alegando a sucessão de Pedro e Leão I (440-461) passou a ser considerado o primeiro papa. Para fortalecer a figura do sacerdote foram estabelecidas as cerimônias sacramentais que só podiam ser aplicadas pelos mesmos. A ceia do Senhor passou a ter um teor sacrificial e sacramental e que posteriormente tornou-se o dogma da Transubstanciação. Dessa forma estava formada a Igreja Católica Romana pronta para entrar no período da Idade Média, período também conhecido como a Era das Trevas.

Bibliografia:

Rega, Lourenço Stelio / organizador. Paulo, sua vida e sua presença ontem, hoje e sempre. São Paulo: Editora Vida.
Hurlbut, Jesse Lyman. História da Igreja Cristã. Editora Vida.
Cairns, Earle E. O Cristianismo através dos séculos. Editora Vida Nova.





Quarto Período: A Igreja Medieval

desde a queda do Império Romano em 476 d.C até a queda de Constantinopla em 1453 d.C

A Igreja Medieval durou por quase mil anos. Dentro desse longo período pode-se destacar como principais acontecimentos: o apogeu e declínio do poder papal, o surgimento do Islamismo, o estabelecimento do Santo Império Romano ou Germânico, o Cisma entre a Igreja Romana e a Igreja Ortodoxa Grega, as Cruzadas, o desenvolvimento da vida monástica e os movimentos da pré-reforma.

O apogeu e declínio do poder papal

O estabelecimento do poder papal que havia iniciado na Igreja Imperial, alcança com a Igreja da Idade Média (a Igreja Católica Romana) o apogeu, iniciando com o papa Gregório I em 590 e chegando ao clímax com Gregório VII (Hildebrando) e Inocêncio III. A partir de 1303 já se vêem claros indícios de declínio da autoridade papal com Bonifácio VIII.

Gregório I foi escolhido bispo de Roma em 590 e ampliou o poder do bispado romano. Sua administração fez da igreja de Roma uma das mais ricas, tornando a igreja a governadora dos reinos da Europa Ocidental. No campo dogmático Gregório desenvolveu as doutrinas da adoração de imagens, do purgatório e da transubstanciação (transformação do pão e vinho da Ceia em verdadeiro corpo e sangue de Jesus). Gregório também havia sido monge e defendia a vida monástica.
Nos séculos seguintes a Igreja Católica aumentou sua autoridade, pois contava com a instabilidade dos governos da Europa. Governantes fracos em troca de apoio da igreja de Roma faziam concessões de poder aos bispos. A igreja romana, por outro lado, também usava de artifícios para adquirir e manter o seu poder. Documentos falsos tais como a “Doação de Constantino” e os “Decretos Pseudo-Isidorianas” foram usados para sustentar os privilégios da igreja medieval. A “Doação de Constantino” declarava que Constantino havia dado ao bispo de Roma Silvestre I (314-335) autoridade suprema sobre todo o império ocidental e tornou-se a base legal para a igreja adquirir propriedades na Europa. Pepino (rei franco) fez em 756 a maior doação de terras para a igreja com base nesse documento. Em meados do século XV, a Igreja se deu conta de que o documento não poderia ser legítimo. Ao analisar a sua linguagem em 1440, o humanista italiano Lorenzo Valla provou que a Doação era falsa. Nicolau I (papa de 858 a 867) foi o primeiro a usar os Decretos Pseudo-Isidorianas (publicado em 850) , conhecido também como Falsas Decretais. Esse documento incluía a Doação de Constantino e outros decretos autênticos e forjados. O conteúdo do documento versava sobre a supremacia absoluta do bispo de Roma sobre a igreja e a independência da igreja em relação ao Estado.

O apogeu do papado veio com Hildebrando (papa de 1073 a 1085), mas que já exercia o poder papal vinte anos antes de se tornar papa. Hildebrando foi o único papa mais conhecido pelo seu nome do que pelo seu nome de papa Gregório VII. Como principais atos Hildebrando exigiu o celibato dos sacerdotes, terminou com a nomeação de bispos feita pelos reis e imperadores, decretou que quaisquer acusações contra o clero fossem julgadas em tribunais eclesiásticos e proibiu que os bispos fizessem o juramento de lealdade ao rei. Outro papa que exerceu influência foi Inocêncio III (papa de 1198 a 1216). Em uma de suas cartas, ele escreveu que ao papa havia sido entregue não só a igreja, mas o mundo inteiro com direito a coroa imperial e de todas as outras coroas. Como ações do poder autocrático de Inocêncio podemos citar: a eleição do imperador Otto Brunswick que mais tarde foi deposto por insubordinação e eleito outro imperador; governou diretamente a cidade de Roma decretando leis; obrigou Felipe Augusto, rei da França, a aceitar sua esposa de volta e excomungou o rei João da Inglaterra até que o rei reconheceu em 1213 que era súdito do papa e concordou em pagar mil francos anuais ao papa.

O declínio do papado iniciou com Bonifácio VIII (papa de 1294 a 1303). O sentimento nacional tomava forma e os soberanos da novas nações-estados começaram a entrar em conflito com a igreja. Em função de discórdias entre o papa e o rei francês Felipe, o Belo, o papa tornou-se prisioneiro do monarca para evitar que Bonifácio o excomungasse. Após a morte de Bonifácio, Clemente V, o novo papa, continuou sob o domínio de Felipe revogando todos os atos do papado que desagradavam a Felipe e por ordem do rei a sede do papado foi transferida para Avignon. Até 1377, os papas foram controlados pelos monarcas franceses. Esse período é conhecido como Cativeiro Babilônico (1305 até 1377).

Em 1377, Gregório XI voltou para Roma pondo fim ao Cativeiro Babilônico. Com a morte de Gregório em 1378, os cardeais, em sua maioria francesa, elegeram Urbano VI. Porém em função de conflitos entre o papa e os cardeais, estes elegeram Clemente VII como papa e a sede papal foi mudada novamente para Avignon. Os dois papas eleitos pelo mesmo colégio de cardeais alegaram sua legitimidade papal. Esse fato ficou conhecido como o Grande Cisma. A Europa se dividiu na liderança dos dois papas: França e Espanha apoiaram Clemente VII de Avignon e Inglaterra e outros países seguiram Urbano VI de Roma. Em 1409 foi organizado o Concílio de Pisa para resolver a questão. Nesta época Benedito XIII estava no controle de Avignon e Gregório XII no de Roma. O concílio depôs Benedito e Gregório e elegeu Alexandre V como papa. Os dois papas recusaram reconhecer a decisão do concílio e excomungaram seus membros. Nesse momento passou a existir três papas ao mesmo tempo na condução da igreja. Alexandre V morreu em 1410 e sucedeu-o João XXIII. A questão só foi resolvida no Concílio de Constança realizado entre os anos 1414 e 1418. Gregório XII tinha abdicado, Benedito XIII e João XXIII foram depostos e o concílio elegeu como novo papa Martinho V. Desde então os papas continuaram estabelecidos em Roma.


O surgimento do Islamismo

O Islamismo foi fundado por Maomé que nasceu no ano de 570 e logo se expandiu conquistando já em meados do século VII a Síria, Palestina, Egito e Pérsia e se estendeu para as províncias do Império Bizantino, sobrando apenas Constantinopla que paralisou a expansão muçulmana em 717 e 718 com a defesa organizada pelo imperador Leão, o Isáurico. Toda o norte da África e a maior parte da Espanha também fizeram parte das conquistas e a expansão muçulmana na parte Ocidental foi contida por Carlos Martelo na batalha de Tours em 732. Desta forma a igreja oriental ou bizantina foi seriamente enfraquecida.


O Santo Império Romano ou Germânico

O estabelecimento do Santo Império Romano ou Germânico foi uma tentativa de restaurar o antigo Império Romano, tentativa essa que iniciou com Carlos Magno (742-814), neto de Carlos Martelo e rei dos francos e que tornou-se senhor de quase toda a Europa Ocidental (norte da Espanha, França, Alemanha, Países-Baixos, Áustria e Itália). No ano de 800, Carlos Magno foi coroado pelo papa Leão III, sendo assim o primeiro imperador do chamado Sacro Império Romano, porém a incapacidade dos sucessores de Carlos Magno levaram o império a limitar-se na Alemanha, sendo por isso também conhecido como Império Germânico.

O Cisma entre a Igreja Romana e a Igreja Ortodoxa Grega

O cisma entre a igreja de Roma e a de Constantinopla ocorreu oficialmente em 1054, mas durante séculos as diferenças, as lutas entre papas e patriarcas e a posição político-geográfica já havia estabelecido a separação entre as duas igrejas. Quando Miguel Cerulário se tornou patriarca de Constantinopla, no ano de 1043, deu início a uma campanha contra as Igrejas latinas na cidade de Constantinopla, envolvendo-se na discussão teológica da natureza do Espírito Santo. Roma enviou o cardeal Humberto a Constantinopla em 1054 para tentar resolver este problema. No entanto a questão terminou com a excomunhão do patriarca Cerulário, um ato entendido como a excomunhão de toda a Igreja bizantina e que foi respondido por Cerulário do mesmo modo, excomungando o papa Leão IX. Desde 1054 a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa Grega tem seguido cada qual o seu caminho.

As Cruzadas

Outro movimento da Idade Média foi a organização das Cruzadas com o objetivo de libertar a Terra Santa do domínio maometano. A Primeira Cruzada foi organizada pelo papa Urbano II em 1095 e conseguiu conquistar a cidade de Jerusalém e quase toda a Palestina. Em 7 de junho de 1099, o exército acampou perto da cidade santa e em 15 de julho (uma sexta-feira santa) Godofredo de Bulhão tomou um setor das muralhas e conseguiu abrir uma de suas portas. Neste mesmo ano, conseguem tomar Jerusalém. A repressão fora violenta. Os árabes encontrados no pátio da Grande Mesquita foram exterminados com golpes de espada e de lança. Os judeus foram queimados vivos. O Reino Latino de Jerusalém, como passou a ser chamado, durou até o ano de 1187. A Segunda Cruzada foi convocada por pelo papa Eugênio III para socorrer o Reino Latino de Jerusalém em 1146, mas apenas conseguiu adiar a derrota para os sarracenos que em 1187 conquistaram Jerusalém sob o comando de Saladino (sultão do Egito, Síria e Palestina). A Terceira Cruzada (1189-1192), pregada pelo Papa Gregório VIII após a tomada de Jerusalém por Saladino em 1187, foi denominada Cruzada dos Reis. É assim denominada pela participação dos três principais soberanos europeus da época: Filipe Augusto (França), Frederico Barbaruiva (Sacro Império Romano Germânico) e Ricardo Coração de Leão (Inglaterra). Nessa empreitada, Frederico morreu afogado na Cilícia, Felipe após se desentender com Ricardo retornou e Ricardo embora não tivesse conseguido conquistar Jerusalém, conseguiu um acordo com Saladino a fim de que os peregrinos cristãos pudessem visitar Jerusalém. A Quarta Cruzada (1202-1204), organizada por Inocêncio III, foi denominada também de Cruzada Comercial, por ter sido desviada de seu intuito original pelo duque Dândolo, de Veneza, que levou os cristãos a saquear Zara (atual Zadar, na Croácia) e Constantinopla, onde foi fundado o Império Latino, fazendo com que o abismo entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa se estabelecesse definitivamente. O Império Latino terminou em 25 de Julho de 1261 quando Miguel VIII Paleólogo reconquistou Constantinopla, derrotando o último Imperador Latino Balduíno II. A Quinta Cruzada (1228) foi organizada por Frederico II, imperador do Sacro Império. Pelo tratado de Jafa (1229), Frederico ganhou Jerusalém, Belém, Nazaré e Sídon e foi coroado rei de Jerusalém. A derrota dos cristãos em Gaza, em 1244, teve como consequência a perda dos Santos Lugares. A Sexta Cruzada (1248-1254) foi realizada por Luiz IX da França. Ele invadiu a Palestina através do Egito, mas foi derrotado e aprisionado pelos maometanos. Mais tarde foi resgatado por elevada quantia. A Sétima Cruzada (1270-1272), considerada a última cruzada, organizada também por Luiz IX, foi um fracasso culminando com a morte do monarca devido a uma forte disenteria. Outras cruzadas de menor importância foram organizadas. Na verdade, a partir de 1270 qualquer movimento de guerra organizado pelo igreja católica romana era chamado de cruzadas.

O desenvolvimento da Vida Monástica

Outro movimento que também se fortaleceu na Idade Média foi a vida monástica com o aparecimento das ordens dos Beneditinos (529), os Cistercienses (1098), os Franciscanos (1209) e os Dominicanos (1215). No início as ordens monásticas trouxeram benefícios pois eram centros de estudos, de abrigo e os monges atuavam como eficazes missionários católicos. Porém com o passar do tempo os mosteiros tornaram-se centros de imoralidade, indisciplina, ociosidade e luxúria. No início da Reforma, os mosteiros do norte da Europa estavam tão desmoralizados que foram extintos.

A Pré-reforma

A Pré-reforma não foi um movimento unificado, mas foi na maioria das vezes uma contribuição individual, chegando a tomar, algumas vezes, o formato de grupos organizados. A Pré-reforma, apesar de muitas das vezes não serem formas puras de um cristianismo, pois algumas ainda continham elementos heréticos, foi o despertar da consciência cristã com a finalidade de estabelecer uma Igreja com os propósitos de Cristo. Pode-se enumerar vários expoentes da pré-reforma: Cláudio de Turim, Pedro de Bruys, Arnaldo de Bréscia, Pedro Valdo, Tanquelmo, Wycliffe, João Huss, Savonarola e grupos como os Cátaros ou Albigenses, os Petrobrussianos e os Valdenses. Cristãos que testemunharam, debaixo da perseguição da Igreja Católica, com suas próprias vida.
Cláudio de Turim foi bispo em Turim, cidade do Norte da Itália. Foi contrário ao sacerdotalismo, crendo no sacerdócio universal dos crentes (sem necessidade de mediadores, santos ou sacerdotes); tirou as imagens das igrejas que estavam sob sua jurisdição; condenou o hábito da invocação dos santos; não aprovou o costume das orações pelos mortos. Morreu no ano 832. Tanquelmo afirmava que a autoridade do papa não era absoluta e que os sacramentos não eram válidos se celebrados por clérigos corruptos. Foi preso pelo arcebispo de Colônia e morto em 1115, durante uma tentativa de fuga. Pedro de Bruys e Henrique de Lausane se opunham às superstições dominantes na Igreja Católica, a certas formas de culto e a imoralidade do clero. Rejeitavam o batismo infantil; eram contrários ao uso de imagens no culto; a ceia deveria ser um memorial; insistiam na autoridade da Bíblia sobre os pais da Igreja. Sua idéias deram origem aos movimentos "Petrobrusssiano" e "Henriquianos". Pedro de Bruys foi queimado vivo em 1124 e Henrique de Lausane morreu na prisão em 1148. Arnaldo de Bréscia (1155) pregava que a Igreja não devia ter propriedades; que o governo civil pertencia ao povo; que Roma devia ser liberta do papado. Ele foi enforcado, a pedido do Papa Adriano IV. Pedro Valdo foi um rico comerciante de Lyon, no século XII. Em 1176, teve contato com uma tradução do Novo Testamento e decidiu abandonar todos os seus bens, com exceção daquilo que fosse necessário para o sustento de sua família. Um grupo de discípulos logo se formou, tornando-se conhecidos como os Pobres de Espírito. Valdo e seus seguidores passaram, então, a pregar suas idéias pela região. Em virtude da recusa em interromper suas pregações, eles foram excomungados em 1184. Valdo traduziu a Bíblia para o provençal. Mesmo após a morte de Pedro Valdo, em 1217, seus discípulos continuaram o movimento debaixo das perseguições, sendo conhecidos como os valdenses.
Os Albigenses (Albi, sul da Fraça) ou cátaros rejeitavam as doutrinas do purgatório, adoração às imagens e os sacramentos e tinham uma proximidade com as doutrinas gnósticas e maniqueístas dos séculos I e II. Os Cátaros afirmavam que a Igreja se corrompera desde os tempos de Constantino. O Catarismo considerava o poder papal uma espécie de paganismo sob uma máscara de cristianismo e, por isso, defendiam a volta à igreja simples do Novo Testamento. O papa Inocêncio III organizou em 1208 a chamada Cruzada Albigense que resultou no assassinato de quase toda a população da região.
John Wycliffe (1324-1384) foi professor da Universidade de Oxford, teólogo e reformador religioso inglês, considerado precursor das reformas religiosas que sacudiram a Europa nos séculos XV e XVI. Wycliffe recusou-se a reconhecer a autoridade papal, era contra a doutrina da Transubstanciação, considerando o pão e o vinho como símbolos do memorial da ceia do Senhor. Wycliffe morreu em 1384, porém o Concílio de Constança (1414 – 1418) expediu um decreto em 4 de maio de 1415 declarando Wycliffe como herético, recomendou que todos os seus escritos fossem queimados e ordenou que seus restos mortais fossem exumados e queimados, o que foi cumprido 12 anos mais tarde pelo Papa Martinho V. Suas cinzas foram jogadas no rio Swift, que banha Lutterworth.
Outro precursor da Reforma foi João Huss (1369-1415) da Boêmia. Huss foi influenciado pelos escritos de Wycliffe. Os seu seguidores ficaram conhecidos como os Hussitas. A igreja católica o excomungou em 1410. Huss foi condenado pelo Concílio de Constança e queimado vivo em 1415.

O fim da Idade Média (a Idade das Trevas)

O marco considerado como o fim da Idade Média foi a queda de Constantinopla em 1453 diante dos turcos liderados por Maomé II. Os turcos sucederam aos árabes como poder dominante maometano e fizeram de Constantinopla a capital do Império Turco. Para a igreja um novo período estava sendo delineado iniciando com os movimentos da pré-reforma. A idade das Trevas estava terminando e com a Reforma, o homem que colocará em si uma venda, começava a ver novamente a Luz que nunca deixou de brilhar : Jesus.

Bibliografia:

Rega, Lourenço Stelio / organizador. Paulo, sua vida e sua presença ontem, hoje e sempre. São Paulo: Editora Vida.
Hurlbut, Jesse Lyman. História da Igreja Cristã. Editora Vida.
Cairns, Earle E. O Cristianismo através dos séculos. Editora Vida Nova.





Quinto Período: A Igreja Reformada

desde a queda de Constantinopla em 1453 d.C até o fim da Guerra dos Trinta Anos em 1648 d.C.

A partir de 1500, a sociedade medieval estava sofrendo transformações no campo geográfico, político, econômico, intelectual e religioso. A expansão ultramarina com a descoberta do Novo Mundo (continente americano) e as novas rotas comerciais marítimas para o Oriente impulsionaram a economia dos países europeus, principalmente Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Holanda. O sentimento nacionalista substituiu o conceito medieval de estado universal dando lugar ao conceito de nações-estados. A economia mudou do campo (agrícola) para a cidade (comércio). No âmbito social emergiu a classe da burguesia com possibilidades de ascensão econômica, diferente da classe social medieval estática, onde vivia-se até a morte na classe onde se nascia. No aspecto intelectual e cultural, surgiu o Renascimento despertando a Europa para a literatura, artes e ciências. E no campo religioso surge a Reforma Protestante.

A Reforma na Alemanha.

O movimento da Reforma iniciou na Alemanha com Martinho Lutero, monge e professor da universidade de Wittenberg. A causa direta do início da Reforma foi a venda de indulgências na Alemanha. O papa Leão X, com o objetivo de obter dinheiro para terminar as obras do Templo de S. Pedro em Roma, autorizou a venda de indulgências em determinados estados germânicos. O enviado do papa, João Tetzel, percorreu a Alemanha vendendo bulas que concediam o perdão de todos os pecados àqueles que comprassem ou em nome de quem comprassem (fossem vivos ou mortos) sem ter necessidade de confissão, nem absolvição por sacerdote. Lutero iniciou uma campanha contra Tetzel denunciando a venda como heresia e em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero afixou na porta da Catedral de Wittenberg as 95 teses atacando a autoridade do papa, dos sacerdotes e a venda das indulgências. Estava iniciada a Reforma Protestante.
As idéias de Lutero começaram a ter apoio popular e em 1520, Lutero foi excomungado por uma bula de Leão X. Os livros de Lutero foram queimados e Lutero prontamente queimou em público a bula papal. Em 1521, Carlos V, imperador do Sacro Império Romano convocou a Dieta de Worms para Lutero se defender. Com a proteção dos príncipes germânicos, Lutero compareceu e recusou-se a retratar-se, a não ser que provassem o seu erro diante das Escrituras. No retorno de Worms, os amigos de Lutero o levaram para o castelo de Wartburg onde ficou até 1522. Um poderoso aliado de Lutero, Felipe Melanchton (1497-1560) publicou em 1521 uma obra sobre teologia dos reformadores de Wiitenberg. Melanchton passou a ser considerado o teólogo do movimento luterano. Enquanto isso no castelo de Wartburg, Lutero fazia a tradução do Novo Testamento para a língua alemã.
Em 1526 a Dieta de Speier concedeu o direito de cada governante de estado escolher a fé que quisesse. A segunda Dieta de Speier em 1529 revogou a primeira e estabeleceu a fé católica como única. Os príncipes luteranos leram um protesto e passaram a ser denominados “Protestantes”. Em 1530 na Dieta de Augsburg, Melanchton apresentou a “Confissão de Augsburg” que passou a ser o credo oficial da igreja luterana. Lutero morreu em 18 de fevereiro em 1546. Melanchton continuou como o líder do movimento. Os conflitos entre o imperador e os príncipes germânicos levou a guerra no ano de 1546, só terminando com a paz de Augsburg em 1555 dando ao luteranismo igualdade legal com o catolicismo romano na Alemanha.

A Reforma em outros Países da Europa.

A Reforma na Suíça sob a liderança de Huldreich Zwínglio (1484-1531) foi um movimento separado da reforma alemã. Zwínglio era contrário as indulgências e as peregrinações ao altar da virgem Maria em Einsiedeln e em 1522 rompeu definitivamente com a Igreja Católica. Em 1531 Zwínglio morreu em combate na guerra civil entre católicos-romanos e protestantes. A reforma continuou e mais tarde sob a liderança de João Calvino, o maior teólogo após Agostinho, cujo movimento reformista chamou-se calvinismo, ganhou adeptos na França, Hungria, Morávia, Holanda, Escócia, Irlanda do Norte, vale do Reno na Alemanha e Polônia.
No reino escandinavo (Dinamarca, Suécia e Noruega) o luteranismo foi o movimento reformista adotado com o apoio do rei Cristiano II. Na França foi adotado o calvinismo e os protestantes se organizaram passando a serem conhecidos como huguenotes. O movimento cresceu e logo as perseguições surgiram. O episódio mais conhecido dessas perseguições é o massacre da noite de São Bartolomeu em 1572. Na noite de 23 e 24 de agosto mais de dois mil cristãos foram mortos em Paris e no total foram entre 70.000 e 100.000 protestantes franceses chacinados pelos católicos.
Na Inglaterra a reforma iniciou com João Tyndale que foi martirizado em Antuérpia em 1536. Outro líder da reforma foi Thomas Cranmer, arcebispo de Cantuária. Cranmer foi executado em Oxford, em 21 de março de 1556. Ele deveria confirmar uma retratação de suas crenças, que, em um momento de fraqueza, fizera antes. Mas, no momento de seu martírio, ele retira a sua retratação, reafirma a sua fé bíblica e reformada, e é levado para a fogueira. Ele concluiu seu histórico pronunciamento dizendo: "Há um escrito contrário à verdade que tem sido publicado, e que agora repudio, porque foi escrito por minha mão contra a verdade que meu coração conhecia... E diante do fato que foi minha mão que a ofendeu, ao escrever contra o meu coração, minha mão será castigada primeiramente. Quando eu estiver na pira, ela será que primeiro arderá".
Outros líderes como o bispo Latimer e o bispo Ridley também foram martirizados. Latimer encorajou Ridley na fogueira dizendo que eles iam naquele dia arder como uma vela, um fogo que, pela graça de Deus, na Inglaterra jamais se apagaria. Os martírios de cristãos agiram fortalecendo o movimento reformista, assim como na época da Igreja Perseguida nos séculos II e III.

A Contra-Reforma Católica.

A resposta da igreja Católica ao movimento reformista foi a Contra-Reforma realizada através de duas ações iniciadas pelo papa Paulo III: o estabelecimento da Inquisição Romana em 1542 e a convocação do Concílio de Trento em 1544. O Concílio iniciou em 13 de dezembro de 1545 e durou vinte anos passando pelos governos de quatro papas até terminar em 4 de dezembro de 1563. O concílio teve como principais assuntos as doutrinas da igreja romana, a reforma dos abusos do clero e a possibilidade de uma cruzada contra os reformadores. As principais decisões foram a adoção da tradição na mesma importância da Bíblia como regra de fé, a adoção definitiva da Vulgata Latina de Jerônimo com seus livros apócrifos como a Bíblia Católica oficial, a confirmação dos sete sacramentos, a confirmação da doutrina da transubstanciação, decretos sobre o purgatório, regras de casamento, etc...
Em outra frente contra os reformadores estava a arma mais eficiente de coerção do poder da igreja católica: a Inquisição. A Inquisição teve origem em 1183, na averiguação dos cátaros de Albi, no sul de França por parte de delegados pontifícios, enviados pelo papa. Na Espanha foi autorizada pelo papa em 1480 onde mais de 10.000 pessoas foram executadas. Em 1542, o papa Paulo III estabeleceu a inquisição como instrumento de combate aos “heréticos”,ou seja, os cristãos reformadores. Segundo alguns historiadores, calcula-se que mais de 70.000 pessoas foram executadas.

A Guerra dos Trinta Anos.

Como resultado dos interesses contrários entre reformadores e católicos, inciou-se em 1618 a chamada Guerra dos Trinta Anos. Essa guerra teve quatro períodos: O período Palatino-Boêmio de 1618 a 1624 com a vantagem dos católicos sobre os protestantes. O período Dinamarquês de 1624 a 1629 que resultou na proclamação do edito da Restituição onde todas as terras da Igreja Romana tomadas pelos protestantes foram devolvidas e também expulsou os protestantes das terras governadas por príncipes católicos. O período Sueco de 1630 até 1635 terminou com a derrota das forças imperiais do Sacro Império Romano diante dos protestantes. O quarto e último período foi o Francês de 1635 a 1648 e terminou com a assinatura da paz de Westfália que ratificou as cláusulas do Tratado de Augsburgo de 25 de setembro de 1555, garantindo a protestantes e católicos a liberdade de culto. O Sacro Império Romano perdeu seu papel unificador, uma vez que o mapa político-geográfico da Europa estava redesenhado. Assim a perseguição religiosa aos reformistas terminava, terminando também o período da Igreja Reformada.

Sexto Período: A Igreja Moderna

desde o fim da Guerra dos Trinta Anos em 1648

O foco do período da igreja moderna não será a Igreja Católica Romana, mas sim o desenvolvimento das igrejas reformadas; os movimentos ocorridos nos séculos XVIII, XIX e XX (racionalismo, liberalismo, denominacionalismo, secularismo, avivamentos, ecumenismo, missões) e a evangelização da América do Norte e da América Latina.

O Desenvolvimento da Igreja Protestante na Europa.

A partir da reforma do século XVI o protestantismo desenvolveu durante o século XVII um sistema doutrinário bastante intelectualizado. Era uma igreja mais voltada para a teologia do que para a prática cristã, principalmente entre os luteranos da Alemanha. Essa posição intelectual do cristianismo e o surgimento da filosofia racionalista levaram as igrejas a um formalismo religioso e frio que foi se estabelecendo na Europa principalmente entre os anos de 1660 e 1730. A resposta a essa fria ortodoxia foi o surgimento dos movimentos de avivamento da igreja nos séculos XVII e XVIII.
Na Inglaterra, pouco depois da reforma, existiam três grupos organizados na igreja: os romanistas cujo objetivo era reatar com a igreja de Roma, o anglicanismo estabelecido nas reformas realizadas pelo rei Henrique VIII e a rainha Elisabete e que passou a ser o representante da igreja oficial da Inglaterra e os puritanos que se opuseram ao sistema anglicano por acharem que tal sistema ainda continha muitos aspectos da igreja católica romana. No governo de Carlos II (1660-1685), os puritanos foram perseguidos e após a Revolução Gloriosa de 1689 foi reconhecido o direito dos puritanos de se organizarem, surgindo assim as igrejas Presbiteriana, Congregacional e Batista.
Não só as igrejas inglesas, mas as igrejas européias, em geral, haviam se tornado formalistas demais. Surgiram então os movimentos de avivamento que foi uma reação a essa situação formalista. Os representantes do movimento de avivamento enfatizavam a pregação bíblica com a justificação do pecador e a relação filial do crente com Deus, em oposição também ao racionalismo que surgiu no século XVIII na Alemanha e Inglaterra. O racionalismo foi um movimento cujo principal aspecto era a interpretação racional das Escrituras, desacreditando os relatos dos milagres descritos na Bíblia e considerando Jesus como não divino.
No século XVIII surgiu o avivamento metodista na Inglaterra, considerado como o terceiro movimento de despertar religioso naquele país(o primeiro fora a própria Reforma e o segundo o movimento dos Puritanos). Esse despertar foi comandado por John Wesley (1703-1791) que começou a pregar ao ar livre em 1739. Como resultado final de seu trabalho temos os extraordinários números de mais de 200.000 milhas percorridas pela Inglaterra, Escócia e Irlanda onde pregou mais de 42 mil sermões, escreveu cerca de 200 livros e organizou seus seguidores que foram chamados de metodistas. Esse avivamento wesleyano do início do século XVIII conseguiu converter muitos operários e lavradores à uma religião mais espiritual e de 1790 a 1830 influenciou a classe alta da Igreja Anglicana, iniciando também um avivamento anglicano que foi denominado de movimento evangélico. Certos líderes evangélicos estiveram ligados aos wesleyanos e assim os metodistas tiveram sua contribuição no despertamento das igrejas anglicanas.
Na Alemanha o movimento de avivamento deu-se com os pietistas que acentuavam o retorno aos estudo bíblico e à oração. O movimento surgiu com Philip Spener (1635-1705) que organizava reuniões para estudos bíblicos e orações nas casas dos membros. O Pietismo gerou interesse pelo estudo e aplicação da Bíblia à vida diária com ênfase no Espirito Santo sendo este o Iluminador dos homens para as verdades e revelações de Deus.
Na Dinamarca com Nicolai Grundtvig (1783-1872) foi estabelecido o avivamento pietista dirigindo esforços para a formação de escolas populares e cooperativas. Na Suécia o avivamento foi iniciado por Hans N. Nauge (1771-1824) . O avivamento atingiu também França, Suíça, Noruega, Países Baixos, Irlanda, etc. Além dos resultados sociais percebidos pelo movimento, um outro movimento foi gerado como consequência do avimento: Missões. O conceito reformado do relacionamento individual com Deus e a vontade daqueles que passaram pelo avivamento de levar tal experiência a outras pessoas foi o combustível para o início de missões. Várias sociedades missionárias foram criadas a partir de 1792: a Sociedade Missionária Batista fundada por William Carey (1761-1834), a Sociedade Missionária de Londres fundada em 1795 pelos congregacionais, a Sociedade Missionária Escocesa (1796) e a Sociedade Missionária de Glasgow (1797) fundadas pelos presbiterianos, Sociedade Missionária da Igreja (1799) criada pelos evangélicos. Homens como Carey, Pilkington, Robert Morrison e Robert Moffat foram usados por Deus na obra missionária, um trabalho que também tem gerado mártires ao levar a palavra de Cristo a outros povos.

A Igreja Protestante no Continente Americano.

O movimento de emigração da Europa por motivos de perseguição aos protestantes, o envio de colonos para se estabelecer e explorar as terras no Estados Unidos e mais tarde o movimento de missões foram os principais fatores do estabelecimento do cristianismo protestante norte-americano. A Igreja Anglicana foi estabelecida como a igreja oficial das colônia de Virgínia onde já havia se estabelecido desde a fundação da colônia em 1607 e posteriormente foi oficializada a igreja de Nova York (1693), Maryland (1702), Carolina do Sul (1706), Geórgia (1758) e Carolina do Norte (1765). No geral as colônias do Sul tornaram-se anglicanas. O congregacionalismo se estabeleceu na Nova Inglaterra no início do século XVII. Em 1620 cerca de 100 colonos saíram da Inglaterra e aportaram em Plymouth na Nova Inglaterra. Muitos puritanos se estabeleceram em Salém e Boston a partir de 1628. A Igreja Batista surgiu em Newport em 1648 organizada por Roger Williams (1603-1683). O presbiterianismo surgiu com a emigração de escoceses-irlandeses. Em 1750 quase 100 mil foram para os Estados Unidos e se fixaram em New Jersey e New York. Muitos foram para Pennsylvania tornando Pittsburgh o principal centro presbiteriano norte-americano. Os metodistas começaram a se fixar nos Estados Unidos a partir de 1760. John Wesley enviou missionários em 1768.
O movimento de avivamento também alcançou os Estados Unidos atingindo o apogeu em 1740. Como resultado do movimento entre 30 e 40 mil pessoas foram alcançadas e 150 novas igrejas estabelecidas somente na Nova Inglaterra. Houve um fortalecimento moral das famílias e nas relações trabalhistas. Universidades como Princeton e Columbia foram criadas para a formação de ministros com o objetivo de atender as novas congregações. O trabalho missionário foi impulsionado. Durante a revolução norte-americana parte das igrejas anglicanas era favorável aos revolucionários e outra parte aos ingleses. Os metodistas se mantiveram neutros, apesar de terem sido acusados de desleais à causa nacional americana. Os congregacionais, os batistas e os presbiterianos eram favoráveis a causa da revolução. Com o término da guerra em 1783 o Estado garantiu o direito livre de religião e estabeleceu a separação entre Igreja e Estado, um reflexo do secularismo que é uma política de separação entre religião e Estado, a partir da idéia de que instituições religiosas não devem ter poder político nem influenciar nas leis. O secularismo deve sua origem ao racionalismo naturalista que se fez presente e se difundiu na Europa a partir do século XVII.
Na América Latina o cristianismo chegou através da igreja católica antes do ano de 1500. Na época em que a reforma já estava bastante desenvolvida na Alemanha e Suíça, os franciscanos já haviam “convertido” mais de um milhão de ameríndios. Por trezentos anos o movimento protestante esteve ausente no Novo Mundo e somente iniciou em função das pressões exercidas por Inglaterra e Estados Unidos. Assim o começo do protestantismo se deu em 1819 na Argentina com a chegada do pastor batista James Thompson e no Brasil com a concessão de liberdade de culto aos estrangeiros em 1823, tendo um crescimento bastante lento no século XIX e só despontando após a 2a Guerra Mundial. Em 1855 foi fundada a Igreja Congregacional no Rio de Janeiro por Robert Reid Kalley e em 1868 já possuía 300 membros em sua maioria de brasileiros. Os presbiterianos chegaram ao Rio de Janeiro em 1859 e os batistas em Salvador (Bahia) em 1881.
No México a Igreja Episcopal iniciou a obra de evangelização em 1853. Na Colômbia os presbiterianos começaram em 1856 e na Guatemala em 1882. A Sociedade Bíblica reiniciou os trabalhos no Peru em 1888. A Central American Mission enviou o seu primeiro missionário a Costa Rica. Samuel Purdie, em 1896, deu início a evangelização em El Salvador. Como resultado dessas evangelizações o protestantismo teve papel importante nas modificações sócio-políticas ocorridas nos países latinos e se destacou nas obras sociais.


Evolução do pensamento Teológico.

No século XVII e XVIII surgiram correntes de pensamentos anti-religiosos tais como o Racionalismo de René Descartes (1569-1650) baseado na razão e contrapondo-se à revelação divina; o Empirismo de Francis Bacon (1561-1626), Hobbes (1588-1679) e John Locke (1632-1704) afirmando que todo conhecimento humano depende de experiências adquiridas apenas pelos sentidos humanos, descartando a experiência reveladora divina; e o Iluminismo surgido na metade do século XVIII e representado por Voltaire (1694-178), Rousseau (1712-1778), Montesquieu (1689-1755) e Diderot (1713-1784) e que enfatizava a razão e a ciência como ferramenta para explicar o universo.
No século XIX surge a Teologia Liberal influenciada pelo Iluminismo e pela filosofia de Immanuel Kant (1724-1804) que define religião como uma necessidade moral do homem e a Bíblia como um produto humano dessa necessidade. Assim a Teologia Liberal estabeleceu como principais doutrinas: a imanência de Deus eliminando a pessoalidade divina (uma forma panteísta afirmando que Deus é tudo e tudo é Deus); negação da revelação de Deus na humanidade colocando a Bíblia apenas como um livro falível; negação da salvação do homem estabelecendo que o reino de Deus é a construção da sociedade ideal através da evangelização e que a humanidade não é pecadora e nem caída por natureza, não precisa de uma conversão pessoal, apenas o aperfeiçoamento sociológico. Jesus se torna simplesmente um modelo a ser seguido e nega a Santíssima Trindade. Os principais teólogos liberais foram Friedrich Schleiermacher (1768-1834), Johann David Michaelis (1717-1791), Adolf von Harnack (1851-1930), Albrecht Ritschl (1822-1889) e David Friedrich Strauss (1808-1874). A teologia liberal começou a declinar após as duas grandes Guerras Mundiais que mostraram a incapacidade da humanidade de construir uma mundo perfeito, a Grande Depressão de 1929 e a influência da Teologia Neo-Ortodoxa que derrubou a idéia de uma sociedade ideal construída pelo próprio esforço humano.
Uma outra linha de pensamento teológico também surgiu no século XIX e foi chamada de Teologia Existencial. Os teólogos existencialistas definem que não se pode conhecer Deus de nenhuma forma objetiva e que a doutrina da Trindade, os milagres, a revelação do Espírito Santo, tudo isso, não passa de mitologia religiosa, e que, portanto se faz necessário desmitologizar a Bíblia. Seus principais defensores foram Søren Kierkegaard (1813-1855), Rudolf Bultmann (1884-1976), cuja teologia também foi chamada de Teologia do Mito, e Paul Tillich (1886-1965).
A Teologia Neo-Ortodoxa foi uma reação contra a linha teológica liberal tentando retornar a essência da teologia reformista, por isso chamada neo-ortodoxa, retomando elementos bíblicos tais como: doutrina da Trindade, nascimento virginal de Cristo, duas natureza de Cristo (humana e divina) numa só pessoa, salvação pela graça e justificação pela fé. Apesar disso teve sérias falhas uma vez que colocava a Bíblia como um livro humano sujeito à crítica, sendo apenas o registro da revelação divina na humanidade e não a Palavra de Deus revelada. A Salvação tende para o universalismo afirmando que as pessoas já estão salvas em Cristo, faltando apenas tomarem consciência dessa situação. Outro ponto negativo foi denominado transcendentalismo afirmando encontrar verdades religiosas em sistemas doutrinários diferentes e até contrários, sendo todos válidos no caminho para Deus. Os principais representantes dessa teologia são: Karl Barth (1886-1968), Emil Brunner (1889-1966) e Reinhold Niebuhr (1892-1971). A teologia neo-ortodoxa começou a declinar por volta de 1950. Nas décadas seguintes surgiram várias teologias radicais, cada uma mais inadequada que a outra: Teologia da Morte de Deus (Harvey Cox, Gabriel Vahanian, William Hamilton e Paul Van Buren), Teologia da Esperança (Wolfhart Pannemberg e Jürgen Moltmann), Teologia do Evangelho Social (Walter Rauschembush), mais conhecida na América do Sul como Teologia da Libertação (Gustavo Gutierrez, Cornell West, Richard Shaull, Rubens Alves e Leonardo Boff), Teologia do Cristianismo sem Religião (Dietrich Bonhoeffer), Teologia Evolucionista (Pierre Teilhard de Chardin) e Teologia do Processo (Charles Hartshorne e John Cobb Jr.). Essas teologia radicais também estão em declínio da mesma forma que aconteceu com o liberalismo e a neo-ortodoxia e cada vez mais as igrejas evangélicas e as universidades cristãs estão dando atenção a teologia bíblica.

Ecumenismo
O Ecumenismo é um movimento que surgiu no início do século XIX e visa à unificação das igrejas cristãs (católica, ortodoxa e protestante). Na América Latina, foi criado em 1982 o Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI) e reúne 150 diferentes igrejas de todos os países do continente latino-americano. No Brasil foi criado em 1982 o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), com sede em Brasília. Seus membros são: Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Cristã Reformada, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e Igreja Católica Ortodoxa Siriana do Brasil. No âmbito mundial destaca-se o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), fundado em Amsterdão (1948), reunindo 350 igrejas do mundo. Os grandes problemas do Ecumenismo são: o estabelecimento do sincretismo com a união e aceitação de doutrinas e seitas contraditórias levando a um relativismo religioso, uma aproximação com a Igreja Romana, sacrifício da teologia em função da remoção das doutrinas que causam as diferenças maiores que existem entre as crenças. O fundamentalisto evangélico (movimento surgido nos Estados Unidos após a 1a Guerras Mundial, a fim de reafirmar o Cristianismo protestante ortodoxo e de defendê-lo contra os desafios da Teologia Liberal, da Alta Crítica, e de outras correntes considerados danosas para o cristianismo) e pentecostais tem sustentado reações ao ecumenismo.

Conclusão
Os desafios da Igreja de Cristo continuam: ecumenismo, teologias radicais deturpadas, seitas novas proliferando com velocidade, heresias. Mas tudo isso já está escrito na Bíblia: Mateus 24:11 - “levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos” e Efésios 4:14 - “para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro”. A Igreja tem combatido como tem feito a mais de dois mil anos: com evangelização, estudos, missões e vidas para honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Bibliografia:

Rega, Lourenço Stelio / organizador. Paulo, sua vida e sua presença ontem, hoje e sempre. São Paulo: Editora Vida.
Hurlbut, Jesse Lyman. História da Igreja Cristã. Editora Vida.
Cairns, Earle E. O Cristianismo através dos séculos. Editora Vida Nova.
Almeida, Abraão de. Teologia Contemporânea. Editora CPAD.







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