Estudos sobre a Bíblia - Parte III: Elementos de Bibliologia
Conceitos de Bibliologia.
  Nessa parte vamos estudar conceitos de bibliologia: a autoridade da Bíblia, a inspiração divina das escrituras, a inerrância, a infalibilidade e a interpretação bíblica.
1 - Autoridade
  A autoridade é a capacidade de exercer controle, de estabelecer regras ou condutas e que gera a obrigação da obediência da parte de quem está subordinado à tal autoridade. Assim temos a autoridade do estado sobre uma nação, a autoridade paterna, a autoridade militar. No contexto religioso cristão temos a autoridade divina exercida sobre toda a criação e na sustentação do universo, na condução da história da humanidade (uma autoridade que permite o livre-arbítrio do homem) e no plano de redenção do homem. Essa autoridade de Deus é estabelecida através de sua palavra encontrada nas Sagradas Escrituras. A Bíblia é a palavra de Deus e qualquer um que não reconhecer tal atributo desobedece ao próprio Deus.
A Confissão de Fé de Westminster afirma: “Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo”. Dessa forma apesar de podermos citar a influência que ela exerce na história da humanidade, a mudança positiva que ela exerce tanto no aspecto moral, ético e afetivo de milhões de indivíduos, a coerência e a profundidade dos seus ensinamentos e o cumprimento de várias profecias como indícios de que as Escrituras são a palavra de Deus, a maior segurança da autoridade divina na Bíblia vem do próprio Deus que através do Espirito Santo testifica em cada um de nós acerca dessa verdade infalível.
A Bíblia possui diversos indícios dessa autoridade divina: No A.T. Frequentemente lemos a frase “assim diz o Senhor” dando ênfase de que as palavras são autoridade absoluta de Deus. No N.T. também temos passagens que afirmam a autoridade das palavras ali contidas. Paulo diz em 2 Tm 3:16 que toda a Escritura é inspirada por Deus. Em 2 Pedro 1:21, o apóstolo nos relata que nenhuma profecia veio por vontade humana, mas que os homens falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo e hoje temos tais palavras escritas na Bíblia.
Alguém pode questionar que esse argumento da Bíblia declarar-se autoridade divina é um argumento circular: Creio que a Bíblia é a palavra de Deus por que assim afirma e creio nessa afirmação por que a Bíblia é a palavra de Deus. De fato é um argumento circular, porém só temos a percepção de que as Escrituras possuem autoridade de Deus quando o Espirito Santo vai agindo na nossa natureza pecaminosa e vamos descobrindo que a Bíblia é verdadeiramente a palavra de Deus. Por isso nem todos são convencidos e o processo de convencimento pode ser tanto curto quanto longo, pois o Espirito Santo encontra em nós a resistência da natureza caída, a natureza da desobediência à Deus.
Por fim não se pode comprovar ser a Bíblia a palavra de Deus através de recursos externos como a exatidão histórica, a coerência lógica, a exatidão científica ou a razão humana, pois tal exame subordinaria a Bíblia a tal prova e a Bíblia deixaria de ser a autoridade final para se relativizar em função de outras premissas, mas podemos sim usar tais premissas para fortalecer ainda mais a sua autoridade diante dos incrédulos.
Consequentemente devemos obedecer à palavra de Deus e até mesmo revelações dadas por Deus e profetizadas por crentes na igreja devem estar subordinadas às Escrituras, pois tudo que fazemos, deve ser feito de forma equilibrada para que o evangelho de Jesus Cristo não seja envergonhado.
2 - Inspiração
  Em 2 Tm 3:16, Paulo nos relata que toda a Escritura é divinamente inspirada. A palavra grega empregada pelo apóstolo é “theopneustos”, composto de “theos” (Deus) e “pneustos” (assoprado). A tradução inspirada pode ter seu sentido mais completo quando entendemos essa composição de theopneustos levando-nos para o sentido de “respirada por Deus para fora” ou “soprada por Deus”. A idéia central é que as Escrituras são obra de Deus. A Bíblia é a palavra de Deus e não apenas contém a palavra de Deus.
Todo esse primeiro entendimento sobre a inspiração divina nos leva para o conceito da autoria dual da Bíblia: O homem como autor secundário e Deus como o autor primário, uma vez que o Espírito Santo, respeitando as características literárias, culturais, as habilidades e o conhecimento do autor humano, faz com que a mensagem divina seja escrita conforme Deus quer para a revelação de seus propósitos à humanidade.
Várias são as teorias da inspiração que tentam explicar como se deu essa inspiração divina. A teoria do Ditado ou Mecânica define que Deus havia ditado as Escrituras ao homem, mas isso contraria a liberdade usada pelos autores na elaboração do texto bíblico. O homem usando seu estilo, vocabulário e sentimentos registrou a mensagem exata de Deus.
A teoria da Inspiração Parcial estabelece que a inspiração divina atinge apenas os ensinamentos doutrinários, porém se assim fosse não estaria garantida a exatidão em toda a Escritura e poderia ser questionado dessa forma quais partes seriam verdadeiramente inspiradas. O fato é que a inspiração assegura a exatidão em toda a Bíblia. Outra teoria que possui muitos defensores é a que define Graus de Inspiração como se partes da Bíblia tivessem um grau maior de inspiração divina do que outras partes. Esse formato também leva ao mesmo erro da teoria da inspiração parcial.
A teoria que separa conceito e palavra escrita define que somente as idéias (conceitos) são inspirados por Deus e que os homens tiveram liberdade para expressar tais idéias na forma escrita que desejassem. Dando ênfase a inspiração verbal, essa teoria ignora a importância das palavras na mensagem. Em objeção a essa teoria, a Bíblia faz menção à sua própria mensagem entregue pelo Espírito Santo ao homem em forma de palavra conforme Paulo diz em 1 Co 14:37 - “ Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor.”. Alguns usam 1 Co 7:12 quando Paulo ao falar sobre o divórcio cita: “Mas aos outros digo eu, não o Senhor...” para afirmar que partes do N.T. não são inspiradas por Deus, uma vez que Paulo falou por si e não pelo Senhor. Mas até nesse trecho podemos entender como a inspiração divina funciona. Paulo simplesmente esta dizendo que não tinha conhecimento de algum mandamento nas palavras proclamadas por Jesus e que nem tinha havido revelação direta por parte de Deus, mas que ele, Paulo, revestido da autoridade de apóstolo por Jesus estava definindo daquela forma. Uma prova de que o Espírito Santo também aí o conduzia.
A teoria da Inspiração Natural explica as Escrituras como resultado de homens com grandes dons de compreensão espiritual, como acontece com os artistas excepcionais (músicos, poetas, pintores). Esta teoria exclui a autoria divina enfatizando somente a capacidade humana. A teoria da Inspiração Mística alude a uma inspiração como simplesmente uma intensificação das percepções religiosas dos homens crentes. Cada autor humano teve essa percepção mais do que outros e portanto estavam mais capacitados para escrever a Bíblia. Schleiermacher foi um dos maiores defensores dessa teoria que dá ênfase, da mesma forma que a teoria natural, a autoria humana abrindo precedente para que qualquer homem possa ser autor de um livro inspirado, bastando para isso ter tal percepção (que é dada de forma geral a todos os homens crente) mais desenvolvida.
Contra todas essas idéias, temos a teoria Verbal e Plenária adotada pela Igreja que enfatiza a ação do Espírito Santo agindo sobre os autores humanos orientando-os na transcrição do registro bíblico. Transcrição que poderia basear-se nas observações pessoas, fontes orais ou verbais ou revelações divinas diretas, porém preservada de erro nos manuscritos originais. Plenária é usada no sentido da exatidão da inspiração verbal ser assegurara em cada parte escrita na Bíblia, garantindo a inerrância, a infalibilidade e a autoridade divina.
3 - Inerrância e Infalibilidade
  A inerrância bíblica é um conceito que define a veracidade dos fatos descritos nos manuscritos originais, ou seja, a Bíblia não contém nenhum erro, nem contradições. Dessa forma a Bíblia se torna infalível na sua mensagem que passa a ser confiável e fidedigna.
A chave para explicar a inerrância bíblica está na compreensão do que seja o significado da afirmação “não existe erro” nas Escrituras. Pode-se enumerar alguns itens que ajudam a esclarecer esse ponto em que a perspectiva a ser adotada descarta eventos que aparentemente parecem erros, mas que estudados na devida forma dão uma nova concepção corroborando a idéia da inerrância. Assim o fato da Bíblia empregar linguagem do cotidiano para descrever eventos científicos e/ou históricos não devem ser tomados como erro. Dessa forma podemos ler confortavelmente na Bíblia que “a roupa ficou com lepra (Lv 13:47-59)” e “o coelho e a lebre ruminam (Lv 11:5-6)” por que essa é a perspectiva do observador ao descrever tais fatos. Em Levítico 11:5 o autor descreve o coelho como um animal ruminante e sabemos que o coelho não pertence ao grupo dos ruminantes. Porém a palavra usada naquele tempo e contexto não tem por objetivo o sentido científico, mas sim o da perspectiva do observador, pois esse animal faz o movimento do queixo como se estivesse ruminando. O emprego da palavra era muito mais focando o sentido do movimento que os animais faziam. O mesmo para o sentido da roupa ter lepra, pois o termo usado naquele naquele tempo era mais abrangente e incluía além da doença a deterioração na superfícies de objetos.
O emprego de números para quantificar eventos, mesmo não sendo a exata quantia não são erros. Pode-se relatar que 8000 homens morreram numa certa batalha, apesar do número exato não ser esse (poderia ser 7894). Seria errado relatar um valor muito alto como o dobro (16000 por exemplo) ou um valor muito abaixo (1000), uma vez que a idéia geral não estaria sendo passada ao leitor, mas do contrário, quando o objetivo maior do relato não é passar a idéia de exatidão dos números, esse item não é visto, portanto, como um erro. Como exemplo podemos citar Gênesis 15:13 que relata o tempo de 400 anos para a escravidão do povo hebreu no Egito e Êxodo 12:40-41que relata 430 anos para a permanência do povo hebreu naquele país.
Afirmações imprecisas ou vagas também não devem ser vistas como erro. Frases do tipo “moro a pouco mais de um quilômetro do escritório” é uma declaração vaga, mas não falsa. Certas declarações bíblicas podem ser vagas, talvez por não serem essenciais no contexto ou na revelação que Deus queria passar ao homem, porém isso não significa que são erradas. Outra categoria são os erros gramaticais. Uma frase estar gramaticalmente errada, não significa que esteja semanticamente incorreta.
Alguns alegam que não temos uma Bíblia inerrante por que a inerrância se aplica apenas ao manuscritos originais e só temos cópia de cópias desses manuscritos. Mas podemos refutar tal conceito, por que a Bíblia que temos hoje esta preservada em mais de 99% em relação a estes manuscritos originais. A preservação faz parte do plano de Deus de manter durante o desenvolver da história da humanidade uma Bíblia que é a exata revelação dos propósitos divinos. Além disso as variações não afetam a essência da mensagem.
4 - Interpretação
  A Bíblia é um manual dado por Deus à humanidade. Como um instrumento nas mãos do homem, a Bíblia pode ser usada para prover o bem ou prover o mal pelo próprio homem. Baseado nas Escrituras são elaborados vários sistemas teológicos inexatos quanto a aplicação dos dogmas bíblicos, seitas se aproveitam de interpretações demasiadas literais ou descontextualizadas para estabelece suas crenças, seitas apocalípticas aplicam a mensagem bíblica ao extremo levando seus sectários ao suicídio coletivo como o seguidores do pastor Jim Jones, sistemas religiosos provocam perseguições e mortes como foi a inquisição católica.
A ciência da interpretação é um sistema de técnicas (hermenêutica e exegese) que auxiliam no entendimento mais correto das Escrituras, apesar de tais técnicas também estarem condicionadas aos limites do homem. Mas alguns critérios podem ser estabelecidos para levar a um aperfeiçoamento na questão da interpretação bíblica:
a) ter em mente que o objetivo da Bíblia é ser o livro da Revelação de Deus à humanidade e não um livro de exatidão científica e histórica, apesar de que a arqueologia nos últimos tempos vem comprovando muitos dos eventos bíblicos;
b) observar as características literárias (narração, poesia, parábola, epístolas, etc..), o contexto (cultural, social, político, econômico e geográfico), os destinatários e o autor de cada livro bíblico;
c) a premissa do tema geral bíblico sobre o tema específico, ou seja, interpretar de acordo com os contextos imediatos e mais amplo e em harmonia com toda a Bíblia, comparando livro com livro;
d) a busca do sentido comum das palavras usadas na época em que o livro foi escrito;
Esses são apenas alguns itens a serem considerados no cuidado da interpretação bíblica. Não que todos os leitores tenham que adquirir esses conhecimentos de hermenêutica, de exegese, línguas originais (grego e hebraico) para compreender a mensagem bíblica, afinal de contas uma das bandeiras da Reforma foi a liberdade de qualquer um poder ler e entender a Bíblia com a certeza da orientação do Espírito Santo. E verdadeiramente a mensagem bíblica básica da revelação de Deus é claramente identificável: o homem pecador e caído é resgatado pela fé em Jesus Cristo que por seu sacrifício vicário na cruz, nos redimiu e nos dá a salvação eterna. E isso tudo nos é dado pela graça e misericórdia de Deus. Porém por outro lado, em função das diversas doutrinas distorcidas e heréticas, de passagens com interpretação complexa ou da distância do significado dos textos para os destinatários originais e a aplicação da mensagem no contexto atual , o próprio Espírito Santo demonstra através dos dons espirituais concedido à igreja a necessidade de ter entre tais dons aquele voltado para o ensino através dos mestres ou professores.
Ressalte-se apenas, para finalizar, que acima da técnicas de interpretação que uma pessoa domine e o nível de cultura e conhecimento que possua, o mesmo valendo para quem também não os possui, a principal fonte da interpretação é o próprio Deus que através do Espírito Santo ilumina a mente dos crentes para que as coisas espirituais sejam discernidas espiritualmente.
Bibliografia
  Comfort, Philip Wesley. A origem da Bíblia. Editora CPAD.
  Geisler, Norman e Howe, Thomas. Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e Contradições Bíblicas. Tradução Milton Azevedo Andrade. Editora Mundo Cristão.
  Grudem, Wayne. Teologia Sistemática Atual e Exaustiva. Editora Vida Nova.
  Chaver, L. S. Teologia Sistemática. Volumes Um e Dois. Editora Hagnos.