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"Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça" (II Timóteo 3:16)

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Teocentrismo
30/04/2008

Estudos sobre a Bíblia - Parte II: O Cânon Bíblico


1 - O Termo Cânon.

  Cânon provêm do grego “kanon” que significa regra, lista, padrão de medida. Aplicado ao contexto bíblico refere-se aos livros que satisfazem o padrão de autoridade e inspiração divina e portanto dignos de serem considerados pela Igreja como integrantes da Bíblia. A partir do século IV, a palavra “kanon” passou a ser usada pela Igreja para indicar a lista de livros pertencentes ao Antigo e Novo Testamento.

2 - Divergências Históricas.

  Ao longo da história, divergências de opiniões foram surgindo entre diversos grupos a respeito de quais livros deveriam ser considerados como inspirados divinos. Os samaritanos, por exemplo, aceitavam apenas o Pentateuco. Várias obras escritas do século II a.C. em diante reivindicavam para si a autoridade de escritos inspirados. Certos judeus no século I d.C. ainda contestavam a canonicidade dos livros de Ezequiel, Provérbios, Cantares de Salomão, Eclesiastes e Ester. Essa questão só foi resolvida no Concílio de Jamnia (90 d.C.) confirmando a inspiração dos livros e também o cânon judaico.
No período patrístico da Igreja - o período dos pais da Igreja primitiva nos primeiros séculos da era Cristã, após os apóstolos e que normalmente vai de 100 d.C. até 750 d.C. - os cristãos tinham dúvidas sobre os livros apócrifos da Bíblia grega (a Septuaginta) e latina (a Vulgata Latina) serem inspirados ou não. Este ponto acabou sendo incluído nos debates da Reforma protestante onde a Igreja Católica afirmou serem os livros apócrifos parte do Antigo Testamento e os reformadores adotaram o cânon judaico que exclui os apócrifos. A Igreja Ortodoxa Oriental também esteve dividida sobre esse assunto, mas tem atualmente apresentado uma tendência de apoiar a decisão protestante[1]. A palavra apócrifo significa oculto, e foi o termo empregado por certas seitas a respeito de seus livros, que eram guardados para seu próprio uso, mas no contexto cristão é usado para designar os livros não canônicos. Os livros apócrifos contidos na Septuaginta e adotados pela Igreja Católica são: I e II Macabeu, Judite, Baruc, Eclesiástico, Tobias, Sabedoria, adições em Ester e Daniel. Apesar da Septuaginta possuir mais livros apócrifos do que estes citados, a Igreja Católica apenas adotou sete livros e as adiçoes a Ester e Daniel.

3 - Critérios da Canonicidade.

  Canonizar um livro significa que é reconhecida a autoria divina do mesmo, através de um processo gradual. No caso da Bíblia cristã esse processo iniciou com os judeus e finalizou com os cristãos. Tanto judeus quanto cristãos tiveram necessidade de fixar seus livros, principalmente os cristãos em função do surgimento de heresias sendo o próprio Espírito Santo o motivador dessa atitude de construir um cânon bíblico cristão.
O historiador judeu Flávio Josefo, em sua obra Contra Ápion, cita os critérios judeus para estabelecer o cânon: inspiração divina, santidade objetiva do livro em contraste com a literatura profana, a limitação em 22 livros e a inviolabilidade do texto que considera todos os livros escritos somente entre Moisés (1445 a.C.) e Artaxerces I (464 a.C. - 424 a.C. ), ou seja, de Moisés até Esdras-Neemias (incluindo aí os profetas dos quais o último desse período foi Malaquias em cerca de 450 a.C. ).
Já os cristãos consideraram como itens para a canonicidade: a inspiração divina analisada através do conteúdo dos livros, a adoção ou aceitação do livro de forma geral pelas igrejas, coerência doutrinária e a apostolicidade, ou seja, deveriam ser considerados de autoria apostólica (Mateus, Pedro, Paulo, João), ou de autores ligados diretamente aos apóstolos ou Jesus: Marcos (discípulo de Paulo e Pedro), Lucas (discípulo de Paulo), Tiago e Judas (irmãos de Jesus).

4 - O Cânon Judaico.

  O apóstolo Paulo declara em Rm 3:1-2 que as palavras de Deus foram confiadas aos judeus. Esta declaração bíblica nos leva primeiramente a entender que o cânon do Antigo Testamento a ser adotado pela Igreja é aquele confiado aos judeus desde Moisés até Esdras-Neemias. Porém a pergunta que devemos fazer é a seguinte: Havia um conjunto fixo de livros reconhecidos como inspirados divinos pelos judeus? Para responder afirmativamente a esta pergunta temos os seguintes argumentos:

  4.1 - A Tradição Judaica.

  De acordo com a tradição judaica (Midrash Rabbah 12:12) o Canon Judaico (Tanakh) é composto de 24 livros que se agrupam em 3 conjuntos: A Lei, Os Profetas e Os Escritos.
Midrash é uma forma narrativa criada por volta do século I a.C. na Palestina pelo povo judeu. Esta forma narrativa desenvolveu-se através da tradição oral (Talmud) até ter a sua primeira compilação apenas por volta do ano 500 d.C. no livro Midrash Rabbah. O Talmud é uma obra que compila discussões rabínicas sobre leis judaicas, tradições, costumes, lendas e histórias. É um detalhamento e comentário das tradições judaicas a partir das leis compiladas por Moisés na Torá.
Tanakh é um acrônimo utilizado dentro do judaísmo para denominar seu conjunto principal de livros sagrados, ou seja, a Bíblia Judaica. O conteúdo do Tanakh é equivalente ao Antigo Testamento, porém com outra divisão. A palavra é formada pelas sílabas iniciais de Torá (Lei), Neviim (Profetas) e Kethuvim (os Escritos). Assim a tripla divisão é refletida pelo acrônimo Tanakh atestada em documentos do período do Segundo Templo e na literatura rabínica. Essa trípla divisão é importante, pois será referenciada por Jesus no Novo Testamento (ver item 4.5). Durante aquele período, entretando, o acrônimo Tanakh não era usado, sendo que o termo apropriado era Mikra ("Leitura"). Este termo continua sendo usado em nossos dias, junto com Tanakh, em referência as escrituras hebraicas.
Dessa forma o Cânon Hebraico é composto assim:

A Torá (5 livros): Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio;

Os Profetas (8 livros): Profetas Anteriores: Josué, Juízes, Samuel(I e II em conjunto), Reis(I e II em conjunto) e Profetas Posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel, O Rolo dos Doze (Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias);

Os Escritos (11 livros): Poesia e Sabedoria: Salmos, Provérbios, Jó; Os 5 Rolos cada um usado na ocasião de uma festa específica: Cantares na Páscoa, Rute no Pentecostes, Lamentações no dia 9 do mês Abibe, Eclesiastes na Festa dos Tabernáculos, Ester na Festa de Purim; Profético: Daniel e O resto dos Livros: Esdras-Neemias (em conjunto) e Crônicas(I e II em conjunto);


  4.2 - O Historiador Flávio Josefo.

  Flávio Josefo que viveu entre 37 e 103 d.C. era judeu, foi fariseu e historiador judaico. Ele atesta a divisão tríplice do cânon judaico (Leis, Profetas e Escritos). Além disso, ele confirma o número de 22 livros como o total dos livros do cânon judaico. Em sua obra “Contra Ápion” ele escreve:

"Não temos dezenas de milhares de livros, em desarmonia e conflitos, mas só vinte e dois, contendo o registro de toda a história, os quais, conforme se crê, com justiça, são divinos. Cinco são de Moisés, que refere tudo o que aconteceu até sua morte, durante perto de três mil anos e a seqüência dos descendentes de Adão. Os profetas que sucederam a esse admirável legislador, escreveram em treze outros livros, tudo o que se passou depois de sua morte até o reinado de Artaxerxes, filho de Xerxes, rei dos persas e os quatro outros livros, contêm hinos e cânticos feitos em louvor de Deus e preceitos para os costumes. Escreveu-se também tudo o que se passou desde Artaxerxes até os nossos dias, mas como não se teve, como antes, uma seqüência de profetas não se lhes dá o mesmo crédito, que aos outros livros, de que acabo de falar e pelos quais temos tal respeito, que ninguém jamais foi tão atrevido para tentar tirar ou acrescentar, ou mesmo modificar-lhes a mínima coisa. Nós os consideramos como divinos, Chamamo-los assim; fazemos profissão de observá-los inviolavelmente e morrer com alegria se for necessário, para prová-lo. Foi isso que fez morrer um tão grande número de escravos de nossa nação em espetáculos dados ao povo, tantos tormentos e tantas mortes diferentes, sem que jamais se pudesse arrancar de sua boca uma única palavra contra o respeito devido às nossas leis e às tradições de nossos antepassados."

Josefo não só deu o número de vinte e dois, mas reconheceu que somente estes eram aceitos pelo seu povo como canônicos. A importância deste seu testemunho é maior ainda por que com certeza sendo um judeu helenista que falava o grego era impossível não conhecer a versão da Septuaginta. Assim, ainda que ele houvesse utilizado a versão grega, ele cita apenas o cânon palestinense. Josefo fala em 22 livros, a tradição judaica no Midrash fala em 24 livros. Essa diferença apenas reflete a forma de como eram arranjados. Às vezes Rute era anexado ao livro de Juízes e Lamentações ao de Jeremias, totalizando assim vinte e dois livros. O número de vinte e dois é atestado por outras testemunhas além de Josefo.

No texto da obra de Josefo, acima citado, após referir-se aos cinco livros de Moisés, aos treze livros dos profetas, e aos quatro demais escritos, ele continua afirmando que de Artaxerxes (464 a.C. - 424 a.C.) em diante, tudo havia sido registrado, mas não podia ser considerado digno de crédito. Sendo assim outros livros foram escritos, mas não eram considerados canônicos, com a autoridade divina dos vinte e dois livros mencionados. Os livros escritos depois de Malaquias, afirma Josefo, "...não se lhes dá o mesmo crédito, que aos outros livros, de que acabo de falar e pelos quais temos tal respeito..." Os livros apócrifos surgem exatamente depois do profeta Malaquias no período inter-bíblico (período entre o A.T. e o N.T.), ou os 400 anos seguintes a Malaquias que Deus ficou sem falar através de profetas. Para Josefo os livros autorizados foram produzidos entre a época de Moisés e Artaxerxes (época do profeta Malaquias, cerca de 450 a.C.).


  4.3 - Fílon de Alexandria.

  Fílon, filósofo judeu-helenista (25 a.C. - 50 d.C.), em sua obra, De Vita Contemplativa, também faz referência à divisão tripartida do cânon do Antigo Testamento. Fílon, também, possivelmente, conhecia ou manuseava a Septuaginta, mas não há prova que alguma vez houvesse citado qualquer dos apócrifos. Isso prova que não é porque alguém usou a Septuaginta que terá que admitir o cânon mais extenso de Alexandria que incluía os apócrifos. E isso serve como resposta às objeções de que Jesus e os apóstolos aceitaram os apócrifos por terem utilizado a Septuaginta.

  4.4 - Os Essênios.

  Os Essênios foram uma seita judaica que havia se separado do judaísmo tradicional. Os escritos, conhecidos como rolos do mar morto, desse povo foram descobertos nas cavernas de Qumran em 1947 perto do mar morto. Eles pareciam provar que havia uma categoria maior de livros que os vinte e dois ou vinte e quatro do cânon judaico tradicional, sugerindo para alguns que o cânon não havia sido fechado entre os judeus da Palestina. As descobertas dos rolos do mar morto demonstram que havia muitas outras literaturas religiosas junto com os 22 livros canônicos dos judeus. Entretanto, isto não prova que eles aprovavam um cânon mais extenso. A obra apócrifa “Jubileus”, escrita na Palestina por um fariseu (entre os anos de 135 e 105 a.C.) e encontrada entre a comunidade dos Essênios, cita o número de 22 livros do cânon palestinense, isto é, os mesmos atestados posteriormente por Filo, Josefo e Jerônimo. Isto prova que os essênios tinham o mesmo cânon que os judeus tradicionais. Apesar de haver discordâncias quanto a interpretação no judaísmo, não havia, entretanto discordância quanto ao cânon. Essênios, Fariseus e Saduceus parecem estar de acordo quanto a isso.


  4.5 - Jesus e o Novo Testamento.

  O Novo Testamento cita as “Escrituras” como escritos de autoridade religiosa (Mt 21:42; 26. 56; Mc 14:49; Jo 10:35; 2 Tm 3:16). Menciona, também, a tríplice divisão em Moisés, Profetas e Salmos (Lc 24. 44). Cita e faz referências a todos os outros livros do cânon palestinense, exceto Obadias , Naum, Esdras, Ester, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes.
Jesus se referia ao Antigo Testamento em termos da divisão tríplice. Em Lc 24:44, Jesus diz: “E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos”. Quando Lucas registra o diálogo entre Jesus e os discípulos na estrada de Emaús, ele usa a seguinte expressão: “E começando por Moisés e por todo os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras." (Lucas 24:27). Jesus ainda citou Salmos (Mc. 12.10), Deuteronômio (Mt. 4:4,7,10), Isaias e Jeremias (Lucas 19.46) e Zacarias (Mc. 14:27). Alguns afirmam que há muitas referências feitas pelos escritores do N.T. aos apócrifos, e, portanto, nós não podemos assegurar que Jesus de fato aceitava o cânon palestinense. Mas quando algumas destas referências são examinadas nenhuma delas se confirmam. Por exemplo, alega-se que a referência de Mateus 4:4 é uma alusão ao livro apócrifo Sabedoria de Salomão 16:26, mas isto nada mais é que uma clara citação direta de Deuteronômio 8:3. Também é dito que Mateus 4:15 é uma alusão a 1 Macabeus 5:15, mas o verso é uma citação direta de Isaias 9:1. Dizem que Hebreus 11:35 é uma alusão a II Macabeus 7.12, mas parece ser mais uma referência a I Reis 17.22. Quanto aos pseudepígrafos as únicas alusões certas é o Livro de Enoque 1.9 em Judas 14.

  4.6 - O Concílio de Jamnia.

  No ano 90 d.C., os rabinos judeus realizaram um concílio na cidade de Jâmnia, perto de Jafa, na Palestina, para definir quais seriam os livros da Bíblia judaica. No que diz respeito aos 22 livros do cânon a discussão foi confinada apenas à cinco livros, questionados quanto a sua canonicidade: Ezequiel, Provérbios, Eclesiastes, Cantares e Ester. A decisão favorável aos livros não mudou, portanto em nada a condição canônica daqueles 22 livros. Não foi introduzida nenhuma inovação, nem citado algum dos apócrifos, permanecendo a tradição judaica sobre o cânon a mesma que já havia.

  4.7 - Os Pais da Igreja.

  Grande número de pais da igreja primitiva citaram a numeração tradicional judaica de 22 livros para o cânon hebreu. Orígenes, que tinha contato com os escritos judaicos escreveu que o número de livros canônicos era vinte e dois. Ele preparou em 240 d.C. uma edição do A.T. em seis colunas, a famosa Héxapla, assim distribuídas: 1ª coluna, o texto hebraico; 2ª transliteração do texto hebraico em caracteres gregos; 3ª tradução grega literal ; 4ª tradução grega idiomática de Símaco; 5ª a Sepuaginta; 6ª tradução grega de Teodócio.
Jerônimo (340-420), o grande teólogo bíblico do início do período medieval e tradutor da Vulgata Latina, rejeitou explicitamente os apócrifos como parte do cânon. Ele disse que a igreja os lê "para exemplo e instrução de costumes", mas não "os aplica para estabelecer nenhuma doutrina" (Prefácio do Livro de Salomão da Vulgata, citado em Beckwith, p. 343). Na verdade, ele criticou a aceitação injustificada desses livros por Agostinho. A princípio, Jerônimo até recusou-se a traduzir os apócrifos para o latim, mas depois fez uma tradução rápida de alguns livros. Depois de descrever os livros exatos do AT judaico, Jerônimo conclui:
"E então no total há 22 livros da Lei antiga [conforme as letras do alfabeto judaico],isto é, 5 de Moisés, 8 dos Profetas e 9 dos hagiógrafos. Apesar de alguns incluírem [...] Rute e Lamentações no hagiógrafo, e acharem que esses livros devem ser contados (separadamente) e que há então 24 livros da antiga Lei, aos quais o Apocalipse de João representa adorando ao Cordeiro por meio do número de 24 anciãos [...] Esse prólogo pode servir perfeitamente como elmo (i.e., equipado com elmo, contra atacantes) de introdução a todos os livros bíblicos que traduzimos do hebraico para o latim, para que saibamos que os que não estão incluídos nesses devem ser incluídos nos apócrifos".
No prefácio de Daniel, Jerônimo rejeitou claramente as adições apócrifas a Daniel (Bel e o Dragão e Susana) e defendeu apenas a canonicidade dos livros encontrados na Bíblia hebraica, escrevendo: "As histórias de Susana e de Bel e o Dragão não estão contidas no hebraico. Por isso, quando traduzia Daniel muitos anos atrás, anotei essas visões com um símbolo crítico, demonstrando que não estavam incluídas no hebraico [...] Afinal, Orígenes, Eusébio e Apolinário e outros clérigos e mestres distintos da Grécia reconhecem que, como eu disse, essas visões não se encontram no hebraico, e portanto não são obrigados a refutar Porfírio quanto a essas porções que não exibem autoridade de Escrituras Sagradas".
Jerônimo disse claramente acerca dos apócrifos na citação acima que: "não exibem autoridade de Escrituras Sagradas". Ele afirmou na obra Contra Rufino que havia "seguido o julgamento das igrejas" nesse assunto. De qualquer forma, ele não retirou em lugar algum suas afirmações contra os apócrifos. Finalmente, o fato de que Jerônimo tenha citado os livros apócrifos não é prova de que os aceitava. Essa era uma prática comum de muitos pais da igreja. Ele afirmou que a igreja os lê "para exemplo e instrução de costumes" mas não "os aplica para estabelecer qualquer doutrina".
Agostinho reconheceu que os judeus não aceitavam os apócrifos como parte do cânon (Cidade de Deus 19.36-38). Orígenes e Epifânio também testemunharam que os judeus haviam rejeitado certos livros apócrifos. Orígenes escreveu que os judeus tinham pouca consideração por Judite e Tobias, nunca aceitando-os como canônicos, e Epifânio declarou que eles haviam rejeitado Eclesiásticos, Sabedoria, Baruque e a Epístola de Jeremias.
Eusébio citando Orígenes declara: "Em sua exposição do primeiro Salmo ele dá um catálogo dos livros nas Sagradas Escrituras do Antigo Testamento, da seguinte maneira: "Mas deve-se observar que os livros canônicos, conforme transmitidos pelos hebreus, são vinte e dois, de acordo com o número das letras em seu alfabeto". Outros pais que listaram o número de livros como vinte e dois foram Hilario de Poitiers, Cirilo de Jerusalém, Atanásio, Gregório de Nazianzeno, Basílio, o Grande e Rufino.


  4.8 - A versão de Áquila.

  Relata-se também que a versão grega de Áquila foi aceita pelos judeus alexandrinos no segundo século d.C., apesar de não conter os livros apócrifos. A dedução razoável desta evidência seria que (conforme o próprio Jerônimo esclareceu) os judeus de Alexandria resolveram incluir na sua edição da Septuaginta tanto os livros que reconheciam como sendo canônicos, como também os livros que foram reconhecidos como valiosos e edificantes, porém sem serem inspirados divinos.

5 - A Septuaginta.

  A Septuaginta foi feita no Egito por judeus de Alexandria. Aristeas, um escritor da Corte de Ptolomeu Filadelfo II (285-247 a.C.) conta em uma pseudo-carta, que esta versão foi feita por setenta e dois judeus (seis de cada tribo) mandados a Alexandria no ano de 285 a.C. por Eleazer a pedido de Demétrio Falário, o bibliotecário do rei e completada em setenta e dois dias. Não se pode precisar que se tenha ocorrido verdadeiramente dessa maneira que a história nos chega. Quanto ao tempo em que se completou, não existe prova alguma, o mais provável é que tenha sido elaborada entre os anos de 250 e 150 a.C. Uma análise crítica da obra mostra que esta contém muitas palavras greco-egípcias, e que o Pentateuco está traduzido com maior exatidão do que os outros livros. Mas não é de modo nenhum certo que todos os livros na LXX foram considerados canônicos, mesmo pelos próprios judeus de Alexandria.
Os livros presentes na Septuaginta, conforme a ordem original são: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, 1 Samuel (1Reis), 2 Samuel (2 Reis), 1 Reis (3 Reis), 2 Reis (4 Reis), 1 Crônicas (1Paralipômenos), 2 Crônicas (2 Paralipômenos), 1 Esdras, 2 Esdras (Esdras e Neemias), Ester, Judite, Tobias, 1 Macabeus, 2 Macabeus, 3 Macabeus, 4 Macabeus, Salmos, Odes, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Jó, Sabedoria, Eclesiástico (Sirac), Salmos de Salomão, Oséias, Amós, Miquéias, Joel, Obadias, Jonas, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias, Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruque, Epístola de Jeremias, Ezequiel, Suzana, Daniel, Bel e o Dragão.
A Bíblia de Jerusalém, Edições Paulinas, escreve a respeito dos livros de Esdras e de Neemias: "Os livros de Esdras e de Neemias formavam apenas um 'livro de Esdras' na Bíblia hebraica e na Septuaginta. Já que a Septuaginta conservava o livro apócrifo grego de Esdras e colocava-o em primeiro lugar (1 Esdras), o livro de Esdras-Neemias (canônico) nela é chamado de 2 Esdras. Na época cristã, este foi dividido em dois e tal uso foi seguido pela Vulgata, sendo 1 Esdras (Esdras) e 2 Esdras (Neemias); o apócrifo grego de 1 Esdras da Septuaginta é chamado na Vulgata de 3 Esdras. A designação dos dois livros por seus personagens principais, Esdras e Neemias, é ainda mais recente; ela se insinuou nas edições impressas da Bíblia massorética.”
O que se pode concluir é que a Palestina é que era o lar do cânon judaico e não a Alexandria, no Egito, que apesar de ser o grande centro grego do saber não tinha autoridade para saber com precisão que livros pertenciam ao Antigo Testamento judaico. Alexandria era o lugar da tradução apenas, não da canonização. O fato de a Septuaginta conter os apócrifo apenas comprova que os judeus alexandrinos traduziram os demais livros religiosos judaicos do período inter-testamentário ao lado dos livros canônicos.

  5.1 - A Reivindicação Que Jesus Usou a Septuaginta.

  O Novo Testamento se refere a uma divisão tripartite do Antigo Testamento - lei, profetas e salmos (Lucas 24:27, 44). Os manuscritos do Antigo Testamento grego são, como vimos, entremeados com escritos apócrifos, nunca reconhecidos como "escritura". pelos rabinos, ou por Cristo ou pelos apóstolos. D. A. Waite, pastor da Igreja Batista Independente em Collingswood, New Jersey, argumenta sobre a improvável possibilidade de Jesus ter usado a Septuaguinta. Em Mateus 5:18 Jesus falou sobre a Lei e disse: "Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido." Jesus falou do "i" e do "til", as menores partes das letras hebraicas. O "i" se refere à letra hebraica “yodh” que é do tamanho de uma apóstrofe. Esta é um terço da altura das outras letras hebraicas. O "til" se refere as extensões minúsculas, de algumas letras hebraicas, como o “daleth”, algo parecido com o golpe vertical do lábio em nosso “m” ou “n". Tais indícios apontam para uma Bíblia Hebraica. Waite também nos remete para Mateus 23:35 como sendo apropriada à esta discussão: “para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que mataste entre o santuário e o altar". Por esta referência, o Senhor pretendeu responsabilizar os Escribas e os Fariseus por todo o sangue de pessoas inocentes derramado do A.T. inteiro. Abel se acha em Gêneses, mas Zacarias se acha em II Crônicas 24:20-22 que é o último livro da Bíblia hebraica (i.é, o último livro na terceira seção, os escritos), o que não acontece com a Septuaginta que termina com Daniel seguida por "Bel e o Dragão". A frase, "Abel até Zacarias," é apenas outro modo de declarar, "do início ao fim". Assim tem-se mais uma referência à Bíblia judaica feita por Jesus.


  5.2 - Os apóstolos usaram a Septuaginta?

  Tudo parece indicar que sim. Muitas passagens do Antigo Testamento citadas pelos autores do Novo Testamento seguem de perto o grego da Septuaginta ao invés do texto hebraico. Porém isso não significa que eles usaram os livros apócrifos, mas que sim consultaram os livros considerados canônicos. Nenhuma referência aos livros apócrifos foi achada no Novo Testamento, conforme vimos no item 4.5.

6 - A Vulgata Latina.

  A Vulgata é uma tradução para o latim da Bíblia. Foi escrita em meados do século IV por Jerônimo, a pedido do Papa Dâmaso I. A Vulgata foi produzida para ser mais exata e mais fácil de compreender do que suas predecessoras: a Vetus Latina e a Septuaginta. Foi a primeira, e por séculos a única, versão da Bíblia que verteu o Velho Testamento diretamente do hebraico e não da tradução grega conhecida como Septuaginta. No Novo Testamento, Jerônimo selecionou e revisou textos. Jerônimo não considerou canônicos os sete livros, chamados por católicos e ortodoxos de deuterocanônicos.


7 - Os Concílios e a Reforma Protestante.

  Entre os cristãos eram grandes as divergências sobre o real cânon do Antigo Testamento. Como vimos existiam o cânon alexandrino que incluía os livros apócrifos e o cânon palestinense que excluía os mesmos. A Igreja Católica chamou os livros apócrifos, que ela aceitou como parte de seu cânon, de Deuterocanônicos, ou seja, canônicos em segunda (dêutero) instância.

  7.1 - O Cânon de Atanásio

  Atanásio (293-373 d.C.) foi bispo de Alexandria e escreveu em 367 d.C. uma carta onde citava os livros do A.T, descrevendo quais eram os livros apócrifos:

  "Há, portanto, 22 Livros do Antigo Testamento, número que, pelo que ouvi, nos foram transmitidos, sendo este o número citado nas cartas entre os Hebreus, sendo sua ordem e nomes respectivamente, como se segue: Primeiro, o Gênesis. Depois, o Êxodo. Depois, o Levítico. Em seguida, Números e, por fim, o Deuteronômio. Após esses, Josué, o filho de Nun. Depois, os Juízes e Rute. Em seguida, os quatro Livros dos Reis, sendo o primeiro e o segundo listados como um livro, o terceiro e o quarto também, como um só livro. Em seguida, o primeiro e o segundo Livros das Crônicas, listados como um só livro. Depois, Esdras, sendo o primeiro e o segundo igualmente listados num só livro. Depois desses, há o Livro dos Salmos, os Provérbios, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. O Livro de Jó. Os doze Profetas são listados como um livro. Depois Isaías, um livro. Depois, Jeremias com Baruc, Lamentações e a Carta [de Jeremias], num só livro. Ezequiel e Daniel, um livro cada. Assim se constitui o Antigo Testamento. [..] Mas, para uma maior exatidão, acrescento também, escrevendo para não me omitir, que há outros livros, além desses, de fato não incluídos no Cânon, indicados pelos Pais da Igreja para leitura por aqueles recém-admitidos entre nós e que desejam receber instrução sobre a Palavra de Deus: a Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Sirac, Ester e Judite, Tobias, bem como aqueles chamados Ensinamento dos Apóstolos e o Pastor. Quanto aos primeiros, meus irmãos, foram incluídos no Cânon; mas os últimos são [apenas] para leitura, não havendo em lugar nenhum menção a eles como sendo escritos apócrifos".

   Duas observações devem ser feitas:

    1 - Apesar de Atanásio citar no final de sua carta que os livros Sabedoria de Salomão, Sabedoria de Sirac, Ester e Judite, Tobias e outros não são tidos como apócrifos, ele define que tais livros são apenas para leitura e não foram considerados no Cânon.

    2 - O Cânon judaico conforme vimos anteriormente não incluía o livro de Baruc e a Epístola de Jeremias. Na Septuaginta, a versão do livro de Jeremias também inclui o livro de Baruc e a Epístola de Jeremias, porém Jerônimo escreveu no prólogo de sua tradução do livro de Jeremias que excluiu ambos (Baruc e a Epístola) por não serem nem lidos nem encontrados entre os hebreus. Posteriormente Baruc foi incluido na Vulgata Latina. A Epístola de Jeremias ficou sendo o capítulo 6 do livro de Baruc.

  7.2 - O Concílio de Laodicéia

  A maior parte dos livros deuterocanônicos haviam sido rejeitados no Concílio de Laodicéia em 363-364 d.C. O canon LX do Concílio de Laodicéia cita: "Estes são todos os livros do A.T. apontados para ser lidos: 1-Gênesis; 2-Êxodo; 3-Levítico; 4-Números; 5-Deuterônomio; 6-Josué; 7-Juízes e Rute; 8-Ester; 9- 1 Reis (1 Samuel) e 2 Reis (2 Samuel); 10- 3 Reis (1 Reis) e 4 Reis (2 Reis); 11- 1 e 2 Crônicas; 12- 1 Esdras e 2 Esdras(Neemias); 13-Salmos; 14- Provérbios; 15-Eclesiastes; 16- Cântico dos Cânticos;17- Jó; 18- Os 12 Profetas; 19- Isaías; 20-Jeremias, Baruque, Lamentações e Epístola de Jeremias; 21- Ezequiel; 22-Daniel".


  7.3 - O Concílio de Roma

  O Concílio de Roma em 382 d.C. aceitou os livros apócrifos, com exceção de Baruc. O canon II declara: "Agora verdadeiramente devemos discutir sobre as Divinas Escrituras, quais são aceitas pela Igreja Católica no universo e quais devem ser rejeitadas. Esta é a ordem do Antigo Testamento: Gênese, 1 livro; Êxodo, 1 livro; Levítico, 1 livro; Números, 1 livro; Deuteronômio, 1 livro; Josué, 1 livro; Juízes, 1 livro; Rute, 1 livro; Reis, 4 livros; Crônicas, 2 livros; 150 Salmos, 1 livro; 3 livros de Salomão: Provérbios, 1 livro; Eclesiastes, 1 livro; Cântico dos Cânticos, 1 livro; Outros: Sabedoria, 1 livro; Eclesiástico, 1 livro. Semelhantemente, esta é a ordem dos profetas: Isaías, 1 livro; Jeremias, 1 livro, contendo o Cinoth, isto é, suas lamentações; Ezequiel, 1 livro; Daniel, 1 livro; Oséias, 1 livro; Amós, 1 livro; Miquéias, 1 livro; Joel, 1 livro; Obadias, 1 livro; Jonas, 1 livro; Nahum, 1 livro; Habacuc, 1 livro; Sofonias, 1 livro; Ageu, 1 livro; Zacarias, 1 livro; Malaquias, 1 livro. Semelhantemente, esta é a ordem dos [livros] históricos: Jó, 1 livro; Tobias, 1 livro; Esdras, 2 livros; Ester, 1 livro; Judite, 1 livro; Macabeus, 2 livros."


  7.4 - Concílio de Hipona

  No Concílio de Hipona (África do Norte) no ano de 393 d.C os apócrifos também foram aceitos. O Cânon 36 do Concílio de Hipona define: "Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome 'Divinas Escrituras'. E as Escrituras canônicas são as seguintes: Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reinos, dois livros dos Paralipômenos, Jó, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão, doze livros dos Profetas, Isaías, Jeremias, Daniel, Ezequiel, Tobias, Judite, Ester, dois livros de Esdras e dois [livros] dos Macabeus" (Concílio de Hipona, 08.Out.393).

Obs:
     1) dois livros dos Paralipômenos = 1 e 2 Crônicas;
     2) cinco livros de Salomão: Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico, contudo se atribui geralmente a Salomão somente três desses livros: Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos. Na verdade, não se declara que os cinco livros de Salomão teriam sido escritos por ele, mas foram chamados assim por comporem o núcleo sapiencial da Bíblia, do qual Salomão foi seu maior expoente;
     3) Na Septuaginta e na Vulgata o livro de Lamentações estava junto com o de Jeremias.
     4) o livro de Baruc foi considerado por alguns pais da Igreja como parte do Livro de Jeremias e portanto não foi listado em separado em alguns Concílios.
     5) dois livros de Esdras = Esdras e Neemias;

  7.5 - Concílios de Cartago

  O terceiro Concílio de Cartago realizado em 397 d.C. e o quarto Concílio de Cartago em 419 d.C. confirmam os apócrifos.

  7.6 - Concílio de Calcedônia

  O Concílio de Calcedônia (451 d.C.), confirma também o cânon do Concílio de Laodicéia que excluiu os apócrifos.

  7.7 - Concílio de Trullo

  No Concílio de Trullo em 692 d.C. tanto o Concílio de Laodicéia quanto o de Cartago são sancionados.

  7.8 - Concílio de Trento

  Na época da Reforma em debates com Lutero, os católicos romanos haviam citado Macabeus, em apoio à oração pelos mortos (v. 2Macabeus 12.45,46). Lutero e os protestantes que o seguiam desafiaram a canonicidade desse livro, citando o Novo Testamento, os primeiros pais da igreja e os mestres judeus, em apoio. O Concílio de Trento (1545-1563) reagiu a Lutero canonizando os livros apócrifos. A decisão do Concílio foi polêmica visto que nem todos os livros apócrifos da Septuaginta foram aceitos pelo Concílio. Como exemplo temos o livro 3 Esdras, 4 Esdras e a Oração de Manassés que foram rejeitados. A rejeição de 4 Esdras é particularmente suspeita, porque contém um versículo muito forte contra a oração pelos mortos (4 Esdras 7.105). Aliás, algum escriba medieval havia cortado essa seção dos manuscritos latinos, sendo conhecida pelos manuscritos árabes, até ser reencontrada outra vez em latim por Robert L. Bentley, em 1874, numa biblioteca de Amiens, na França.
Essa decisão, em Trento, não refletiu a opinião universal dentro da Igreja Católica. Os católicos não foram unânimes quanto a inspiração divina nesses livros. Lorraine Boetner (in Catolicismo Romano) cita o seguinte: "O papa Gregório (600 d.C.), o Grande, declarou que primeiro Macabeus, um livro apócrifo, não é canônico. Na época da Reforma, o cardeal Cajetan, que se opusera a Lutero em Augsburgo, em 1518, publicou Comentário sobre todos os livros históricos fidedignos do Antigo Testamento, em 1532, omitindo os apócrifos. Antes ainda desse fato, o cardeal Ximenes havia feito distinção entre os apócrifos e o cânon do Antigo Testamento, em sua obra Poliglota com Plutense (1514-1517), que por sinal foi aprovada pelo papa Leão X. Tendo em mente essa concepção, os protestantes em geral rejeitaram a decisão do Concílio de Trento, que não tivera base sólida.
Como podemos ver houve divergências por todos os séculos da era cristã até o momento da Reforma. Ou podemos dizer em outras palavras que o Espírito Santo orientou homens por todos esses séculos culminando com a Reforma Protestante para que o verdadeiro cânon fosse estabelecido: O cânon palestinense como sendo o Antigo Testamento da Bíblia cristã. Assim tivemos o Novo Testamento, os rabinos judeus, os Pais da Igreja, historiadores, e por último e mais importante Jesus Cristo que orientou sua igreja no caminho da luz, pois sua Palavra é luz para nossos pés.

  7.9 - Conclusão

  É fácil de se notar que não havia unanimidade sobre a questão do cânon em função das contraditórias opiniões dos pais da Igreja (Irineu, Tertuliano e Clemente de Alexandria,por exemplo, aceitavam os apócrifos enquanto Atanásio, Cirilo de Jerusalém e Orígenes rejeitavam), de papas e clérigos (Papa Gregório, O Grande, rejeitou 1 Macabeus; cardeal Cajetan e cardeal Ximenes também rejeitaram os apócrifos) e teólogos (Jerônimo na compilação da Bíblia Latina, conhecida como Vulgata Latina rejeitou os apócrifos). Também das contraditórias decisões dos Concílios (Laodicéia, Roma, Hipona, Cartago, Calcedônia e Trullo) até o momento da Reforma, onde a Igreja Católica determinou pelo Concílio de Trento quais seriam os livros canônicos da Bíblia Católica (aceitando os apócrifos) e os reformados determinaram o cânon da Bíblia Protestantante (de acordo com o cânon judaico, opiniões dos pais da Igreja e pela falta de referências nos escritos dos apóstolos e de Jesus aos apócrifos). Dessa forma através dos tópicos anteriores podemos ver como tais critérios contribuiram para estabelecer o cânon do A.T. e que veio a se efetivar definitivamente com a Reforma.

8 - O Cânon do Novo Testamento.

  A forma como conhecemos foi estabelecida no século IV, por Atanásio de Alexandria. Nas épocas pós-apostólicas, os escritos procedentes dos apóstolos foram gradualmente colecionados até se completar o que se chama o Novo Testamento. A coleção completa se deu lentamente, por varias razões. Alguns dos livros só eram conhecidos como apostólicos em algumas Igrejas. Somente quando esses livros entraram no conhecimento do corpo cristão em todo o Império Romano, é que eles foram aceitos como de autoridade apostólica. O processo adotado foi lento, por causa ainda do aparecimento de vários livros heréticos e escritos espúrios, com pretensões de autoridade apostólica.

  8.1 - Critérios de Canonicidade

  I. Apostolicidade - Um livro seria aceito se tivesse sido escrito por um apóstolo, ou por alguém do círculo apostólico. Se observarmos os escritores do Novo Testamento, poderemos notar essa condição. Mateus, João, Pedro e Paulo foram apóstolos; Tiago e Judas eram irmãos de Jesus; Marcos foi discípulo de Pedro e Paulo; Lucas era colaborador do apóstolo Paulo no trabalho missionário. O autor de Hebreus, se não for Paulo, é alguém que se situava no círculo apostólico (Hebreus 2:3-4). Assim, todo o Novo Testamento está ligado aos apóstolos de Jesus, que tinham sido especialmente designados por ele como porta-vozes autorizados.


II. Receptividade - A igreja receptora deveria ser a testemunha do uso contínuo do documento e de sua origem apostólica. Este critério que decorre do anterior, atrapalhou muito as chamadas "Epístolas Gerais" por não serem dirigidas a uma só igreja e, portanto, carecerem de apoio específico no testemunho de sua origem apostólica. O fato de um livro estar sendo lido em público na igreja seria um fator muito importante para sua aceitação (1 Tessalonicenses 5:27; 2 Tessalonicenses 3:14-15; Colossenses 4:16; Apocalipse 1:3; 3 João 9).


III. Universalidade do livro - Deveria também ser conhecido universalmente, isto é, ter sido aceito por todas as igrejas.


IV. Consistência doutrinaria - Seguia os parâmetros como o usado pelos judeus na formação do Antigo Testamento. Os textos contidos no cânon deveriam seguir o ensino de Jesus e dos apóstolos.


V. Inspiração – Os livros que se submetiam ao julgamento era julgados pelos seus próprios conteúdos, após sua leitura. Segundo Kümmel os livros apócrifos estavam mais influenciados por ideais helenísticos.

  8.2 - O Surgimento de um Cânon

  A coletânea dos textos cristãos primitivos que estava começando a ser feita contribuiu favoravelmente para a construção de um cânon do N.T. Uma coleção das dez epístolas de Paulo aparecem com Márcion (c.110-160), por volta do ano 140. O cânon de Márcion provocou uma reação no seio da igreja. Este falso cânon de Márcion levantou a questão de que livros eram legitimamente a palavra de Deus. Para resolver essa questão os líderes da igreja começaram a estudar a questão do cânon. Essa oposição feita pela Igreja mostrava que os livros rejeitados no cânon de Márcion eram considerados como revestidos de autoridade já naquele tempo. Irineu, Hipólito e Tertuliano foram os grandes opositores do que ficou conhecido como marcionismo. Por volta de 150 d.C. a igreja não tinha o seu cânon formalmente expresso; contudo, referências prévias mostraram que a maioria dos livros do Novo Testamento estava praticamente em uso da Síria, na Ásia Menor e em Roma; já na metade do século II, a força do cristianismo se havia transferido para Roma, a cidade imperial. Os ensinos heréticos de Márcion, sua adoção de um cânon e a popularidade dos seus ensinos poderiam ter forçado a igreja a reconhecer formalmente um Cânon.
O cânon Muratoriano embora seja um documento fragmentário revela que já havia uma lista do Novo Testamento. O fragmento Muratoriano é um documento que data do segundo século e recebe esse nome em virtude de ter sido publicado pelo cardeal Ludovico A. Muratori (1672-1750). Foi descoberto na Livraria Ambrosiana de Milão e contém a mais extensa lista dos escritos neotestamentários. O Cânon muratoriano omite Tiago, 1 e 2 Pedro e Hebreus.
Nomes como Irineu, Tertuliano e Clemente de Alexandria são mencionados pela história da igreja como defensores de um Cânon do Novo Testamento. Os três grandes teólogos do fim do século II, pois, reconhecem um Novo Testamento que contém os quatro evangelhos e uma parte apostólica, a qual pertencem incontestavelmente as 13 epístolas de Paulo, os Atos dos apóstolos, a 1 carta de Pedro, a 1 carta de João e o Apocalipse, ao passo que a canonicidade das cartas gerais e Hebreus não estavam determinadas, e ocasionalmente outros escritos eram encarados e abordados canônicos. Vale salientar que uma outra lista foi preparada por Cirilo de Jerusalém contendo todos os livros atuais do Novo Testamento com exceção de Apocalipse. O Cânon do Novo Testamento que obteve finalmente a aprovação em toda a igreja foi estabelecido por Atanásio, bispo de Alexandria, em 367 d.C. que em sua carta pascal desse ano fez uma declaração importante para a história do Novo Testamento. Esta lista foi mais tarde aprovada pelos concílios da igreja reunidos em Hipona em 393 e Cártago em 397, e permanece sendo o cânon do Novo Testamento hoje. O que os concílios da igreja fizeram não foi impor algo novo sobre as comunidades cristãs, mas codificar o que já era a prática geral daquelas comunidades. Para Barclay a "Bíblia e os livros da Bíblia vieram a ser considerados como a palavra inspirada de Deus, não em vista de qualquer decisão de qualquer Sínodo, Concílio, Comitê ou igreja, mas porque neles a humanidade encontrou Deus.

  8.3 - A Epístola de Tiago

  A Epístola de Tiago foi aceita de forma progressiva na Igreja. Se sua canonicidade não parece ter criado problemas no Egito, onde Orígenes a cita como Escritura inspirada, Eusébio de Cesaréia, no começo do século IV, reconhece que ela ainda é contestada por alguns. Nas Igrejas de língua siríaca, foi apenas no decurso do século IV que a epístola foi introduzida no cânon do Novo Testamento. Na África, Tertuliano e Cipriano a desconhecem e o catálogo de Mommsen (cerca do ano de 360) ainda não a contém. Não figura no cânon de Muratori, editado por Ludovico Antonio Muratori, e é muito duvidoso que ela tenha sido citada por Clemente Romano ou pelo autor do Pastor de Hermas. Foi, porém, incluída entre os 27 livros do Novo Testamento relacionados por Atanásio de Alexandria e posteriormente confirmada por uma série de concílios no século IV.

  8.4 - Martinho Lutero e a Epístola de Tiago

  Voltado para a necessidade de afirmar a doutrina da justificação pela fé, Lutero foi particularmente duro com a epístola de Tiago. Chamou-a de “epístola de palha”, por causa de seu entendimento equivocado de 2.14-26, onde presumiu haver o ensino de justificação pelas obras. Elas constam de seu prefácio à Bíblia Alemã, onde ele se expressa sobre os livros que mais mostram a pessoa de Cristo. Após nomeá-los, disse Lutero: “Por isso, a epístola de Tiago é uma epístola bem insípida se comparada às demais...” [2] No entanto, este reformador, mais tarde, modificou sua posição. Assim se expressou Lutero, conforme nos diz George: “Quando Tiago e Paulo dizem que um homem é justificado pelas obras, eles estão combatendo a noção errônea daqueles que pensam que a fé sem obras é suficiente”[3]. Ou seja, Lutero veio a entender o significado de Tiago. Sua crítica precipitada aconteceu porque no Debate de Leipzig, em 1519, seu oponente, John Eck, citou Tiago 2.17 para rebater a posição de Lutero contra a justificação pela fé. Mais tarde, o reformador maturou suas idéias e modificou sua posição.

  8.5 - A Conclusão do Cânon do Novo Testamento

  A história do cânon estava concluída no Ocidente no começo do século quinto, cem anos mais cedo que no Oriente. É evidente que nem todos os livros do atual Novo Testamento eram conhecidos ou aceitos por todas as igrejas do Oriente e do Ocidente durante os primeiros quatro séculos da era cristã. Alguns foram reconhecidos mais lentamente do que os outros devido ao seu pouco tamanho ou devido ao caráter remoto ou particular do seu destino ou até mesmo ao anonimato no tocante a autoria, ou falta de aplicabilidade às necessidades da igreja naquele período. Porém, nenhum desses fatores trabalharam contra a inspiração divina destes livros ou contra o seu direito de possuir um lugar na palavra autorizada do Deus Todo-Poderoso.

Bibliografia

  Bíblia de Estudo Pentecostal. Almeida Revista e Corrigida. Edição de 1995. Editora CPAD.
  Bíblia de Estudo Plenitude. Almeida Revista e Corrigida. Edição de 1995. Editora SBB.
  Comfort, Philip Wesley. A origem da Bíblia. Editora CPAD.
  http://pt.wikipedia.org/wiki/Midrash
  http://pt.wikipedia.org/wiki/Tanakh
  http://pt.wikipedia.org/wiki/Talmud
  http://pt.wikipedia.org/wiki/Novo_Testamento
  [1] Comfort, Philip Wesley. A origem da Bíblia. Editora CPAD. p. 80.
  [2] LUTERO, Martinho. Da Liberdade do Cristão – Prefácio à Bíblia (Edição Bilíngüe). S. Paulo: Fundação da Editora Unesp, 1997, p. 81.
  [3] GEORGE, Timothy, in “A Right Strawy Epistle: Reformation Perspective on James”. Louisville: Review and Expositor – A Baptist Theological Journal, vol. LXXXIII, no. 3, 1986, p. 371




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