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Estudo de Deuteronômio 6:5
Dt 6:5 - “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças.”
Um dos objetivos da exegese é averiguar a essência das palavras avaliando o emprego e significado no contexto em que foram escritas. Quando lê-se Deuteronômio 6:5 depara-se com três palavras centrais: coração, alma e força e que fundamentam o primeiro grande mandamento de Deus para o homem. Desenvolvendo o estudo exegético conjuntamente com a antropologia bíblica procura-se no contexto do versículo entender se a mensagem comunicada tem o mesmo sentido e valor para o judeu e para o grego nas devidas épocas em que foram utilizadas.
A primeira palavra a ser analisada é coração. No hebraico o termo usado é “lebh” ou “lebhabh” cujo sentido, além do significado fisiológico, indica o homem interior, a volição humana, as aspirações, a mente ou a razão do homem. O que nos dias atuais atribuimos ao cérebro como o responsável por essas características humanas, o judeu entendia que era o coração o centro de tais aspectos do homem. Empregados em conformidade com tal significado citamos os textos de Gênesis 6:5 - “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” e Salmos 19:14 - “Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!”.
No Novo Testamento exitem três referências a Deuteronômio 6:5, citadas por Jesus, e que estão nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, empregando as mesmas palavras: coração, alma e força, porém acrescentando a palavra entendimento/pensamento, conforme listado abaixo:
Mateus 22:37: Coração (kardia) , Alma (psychê) e Pensamento (dianóia)
Marcos 12:29: Coração (kardia) , Alma (psychê), Entendimento (dianóia) e Força (ischus)
Lucas 10:27 : Coração (kardia) , Alma (psychê), Entendimento (dianóia) e Força (ischus)
Kardia é a palavra grega para coração e que possui significado semelhante ao do hebraico: homem interior, fonte dos pensamentos, da inteligência, da vontade e da consciência. Nesse momento o que se questiona é que se o significado é tão similar à palavra hebraica por que houve o acréscimo das palavras entendimento/pensamento nos evangelhos citados acima? Na verdade coração e entendimento estão intimamente ligados. O termo utilizado em grego para entendimento é a palavra “dianóia”, combinação de outros dois termos gregos: “dia” que significa “através de” e “noús” que significa “mente”. Dianóia é traduzida então como a habilidade de racionar. Assim noús é capacidade de gerar pensamentos e parte integrante de Kardia que é a fonte, a mente. Aqui vê-se a necessidade dentro da língua grega de utilizar duas palavras para apresentar a idéia que no hebraico era expressa apenas pela palavra lebh. Em João 12:40 encontramos um exemplo que reforça o emprego desses dois termos gregos; usando o verbo derivado de noús mais a palavra coração temos: “noêsôsin têi kardíai” cuja tradução é compreender com o coração.
A segunda palavra, objeto desse estudo é alma, nefesh em hebraico e psychê no grego. Primeiramente vamos entender o que nefesh significa para o judeu. Originalmente a palavra significa “garganta”, uma referência ao homem e sua necessidade de alimentar-se, de beber, de respirar, de sobreviver. No sentido figurado expressa vida, vitalidade, criatura, pessoa, ser vivo. A primeira referência bíblica de nefesh está em Gênesis 2:7 - “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente”. Alma vivente aqui está mais para o homem tornou-se ser vivo, criatura viva na visão judaica. Quando a palavra nefesh é então transportada para o grego, temos que entender o conceito dualista (corpo e alma) do mundo helênico.
Os filósofos pré-socráticos (Tales de Mileto, Heráclito, Anaxímenes, Demócrito), séculos VII e VI a.C, já conceituavam alma como um principio vital. Pitágoras define alma com a idéia de reencarnação conciliando assim o conceito cíclico de tempo que os gregos adotavam, idéia essa oposta à dos judeus cujo tempo é linear com um início e com um fim determinado por Deus. Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.) contribuiu na evolução do conceito de alma (psychê) passando a ligá-la à personalidade moral, a ética, ao racional e a inteligência.
Retornando a definição de termos no grego, podemos acrescentar às palavras já estudadas, quatro outras usadas para definir os aspectos materiais e espirituais do homem: Soma (corpo), Sarx (carne), Pneuma (espírito) e Psychê (alma) e para definí-las recorremos ao apóstolo Paulo. Na antropologia paulina a distinção entre soma e sarx é clara: sarx assume um sentido mais negativo indicando a carne pecaminosa, a carne que se deteriora no tempo, a fraqueza humana, soma já significa a pessoa integral, ou seja, o ser humano com suas funções vitais. O melhor exemplo de Paulo para tal distinção está em 1 Cor 15:35-50, onde o apóstolo relata que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, mas o corpo pode, ou seja, o corpo pode ser ressuscitado, mas a carne não. No hebraico não existe palavra análoga para soma, a palavra hebraica basar significa “carne”, o que nos mostra mais uma vez a divergência entre as línguas bíblicas.
Pneuma significa o sopro ou espírito e tem como correspondente no hebraico o termo rûah que pode referenciar tanto o espírito humano quanto o Espírito de Deus. Aplicado ao homem aponta um aspecto humano voltado para a dimensão de Deus e pode ser melhor explicado da seguinte forma: O homem constituído de corpo material (soma e sarx) e alma (psychê), tendo o espírito (pneuma) como parte mais elevada da alma.
Finalmente chegamos na palavra psychê (alma) e mais uma vez a diferença entre a antropologia grega e hebraica é notória. Ao contrário do significado de nefesh para o hebreu, como já foi definido anteriormente e que se reporta a pessoa completa, a palavra psychê no grego clássico indicava o aspecto do homem que pode se separar do corpo trazendo à tona o conceito de imortalidade da alma, o que não indica que para o judeu não existisse também tal conceito, pois para o grego a imortalidade não incluía o corpo, mas para o judeu nos "últimos dias" viria o juízo divino e a ressurreição do corpo. Porém dentro da visão do apóstolo Paulo (um hebreu helenizado) a palavra alma passa a referenciar também a pessoa como um todo numa forma de amenizar a diferença conceitual entre grego e hebraico, mas apenas ameniza, pois ainda é mantida a idéia de alma distinta do corpo.
Para fechar o estudo de Deuteronômio 6:5 temos a última palavra utilizada no versículo que é traduzida como força, poder; “meod” no hebraico e “ischus” no grego. O sentido maior é a idéia de amar a Deus com toda capacidade que homem possui. Aqui temos demonstrado a justiça e benevolência de Deus, pois não temos que amá-Lo com forças sobrenaturais que não temos, mas sim com toda a força com que o homem foi capacitado pelo próprio Deus.
Aplicando cada sentido estudado ao versículo podemos dizer que o homem deve amar a Deus com toda a compreensão da sua mente (coração), com todo o seu Ser (alma) e com toda a sua capacidade o qual é dotado pro Deus (forças).
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| Versículo |
"Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei." (Mateus 11:28)
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