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O erro Dispensacionalista
O Dispensacionalismo é um sistema teológico com as premissas básicas da interpretação literal das Escrituras e a distinção entre Israel e a Igreja. Esse movimento surgiu em meados do século XIX na Inglaterra e teve como principal líder o irlândes John Nelson Darby ( 1800-1882 ) que se juntou em 1827 a um grupo da cidade de Plymouth na Inglaterra denominado “Irmãos” ou “Irmãos de Plymouth”. Nos Estados Unidos a disseminação do movimento deu-se através do Instituto Bíblico Moody fundado por Dwight L. Moody e do Seminário Teológico de Dallas fundado por Lewis Sperry Chafer. Outro fator importante para a difusão do dispensacionalismo foi a publicação em 1909 da Bíblia de Referência de Scofield que é uma edição da versão King James com anotações dispensacionalistas feitas por Scofield. Cyrus Ingerson Scofield (1843-1921) nasceu em Michigan, Estados Unidos. Converteu-se em 1879 e foi grande amigo de Moody. A Bíblia de Scofield como é comumente chamada já vendeu mais de dois milhões de cópias.
A palavra dispensacionalismo é definida no Conciso Dicionário de Teologia Cristã como um sistema de interpretação bíblica e teológica que divide a ação de Deus na história em diferentes períodos que são por ele administrados em bases diferentes. Envolve uma interpretação literal da Escritura, uma distinção entre Israel e a Igreja e um a escatologia pré-milenista e pré-tribulacionista. Esse estudo visa apontar os equívocos desse sistema teológico e que tem se propagado nos meios evangélicos.
A interpretação bíblica está subordinada a determinados métodos. Um versículo da Bíblia, isolado do seu contexto, pode apresentar mais de um sentido e somente um é o verdadeiro. Um sistema teológico pode ser definido, segundo Grover E. Gunn, como “o entendimento global dos ensinos das Escrituras e de como esses ensinos se relacionam entre si”[1]. Para que a interpretação de um determinado texto esteja correta é preciso que ela se harmonize com o ensino geral (global) das Escrituras. O sistema teológico de alguém, porém, pode estar errado e, com isso, toda a interpretação à luz daquele sistema fica comprometida. Por isso, é preciso que o próprio sistema esteja sendo sempre conferido e, se necessário, ajustado com as Escrituras, para que possa conduzir a uma correta interpretação. Citando novamente Gunn: “O intérprete deve sempre buscar a confirmação de que seu sistema teológico é consistente com todo o ensino das Escrituras e também, logicamente, consistente em si mesmo. Esse é um processo de toda uma vida. Na verdade, é um processo de muitas vidas, já que o intérprete sempre constrói sobre a obra de exegetas anteriores e visto que a tarefa nunca se finda[2].”
Para se determinar se as conclusões dos dispensacionalistas são verdadeiras, em particular aquelas que conflitam com a interpretação tradicional da Igreja cristã, é preciso verificar se a sua hermenêutica é coerente e sustentável, o que eqüivale a dizer, se seu sistema teológico é consistente.
O primeiro ponto a ser analisado é o da divisão da história em diferentes dispensações. De acordo com Scofield essa divisão se dá em sete dispensações:
1.Inocência – que iniciou com Adão e terminou com a expulsão do Éden.
2.Consciência – que iniciou com a expulsão do Jardim do Éden e terminou com o dilúvio. O nome consciência se deve ao fato do homem passar a conhecer o bem e o mal.
3.Governo Humano - que iniciou com o dilúvio e terminou com a confusão das línguas.
4.Promessa - que iniciou com Abraão e terminou com a escravidão do povo hebreu no Egito.
5. Lei - começando no Sinai e terminando com o fim dos reinos de Israel e Judá.
6.Graça - que é a dispensação atual, iniciando com a morte de Cristo e que terminará com o arrebatamento da Igreja.
7.Reino de Deus - que iniciará com a segunda vinda de Cristo e terminará com o juízo final.
Essa divisão leva a um entendimento de que Deus tem tentando várias formas de agir para com o homem e que tais fórmulas não tem tido sucesso. Em cada dispensação a fórmula foi abandonada para iniciar com um nova, invalidando as anteriores. Pois bem, o plano de redenção de Deus para com a humanidade é uma revelação progressiva e não podemos afirmar que um determinado método divino falhou e que Deus partiu para outra tentativa que falhou novamente e assim por diante. Deus vem atuando na história da humanidade de forma contínua para atingir ao clímax da revelação que é Jesus Cristo. Se formos aplicar o conceito de dispensação temos conforme a Bíblia, duas grandes dispensações ligadas intimamente uma a outra, baseada num plano progressivo de Deus: a dispensação do Antigo Testamento que vai da queda do homem até a morte de Cristo e a presente dispensação, também conhecida como dispensação da Graça que iniciou com a morte de Cristo e vai até sua segunda vinda. Mas ambas ligadas como lemos em Hebreus, capítulo 8, que define a primeira dispensação como um “tipo”, “figura” ou “sombra” da segunda e a segunda como a realização, concretização da primeira.
O segundo ponto é sobre a questão da interpretação literal das escrituras. Interpretação literal é dar o sentido comum utilizado na época, no dia a dia, em que a mensagem foi escrita. Simbologias, tipologias e figuras de linguagem são excluídas da hermenêutica bíblica. Os dispensacionalistas acusam de “espiritualizantes” e de “alegorizadores” os que não interpretam a Bíblia com o mesmo grau de literalidade. M. R. DeHaan ensinando interpretação literal, diz:
Leia a Bíblia literalmente, como faria com qualquer outro livro, crendo que Deus quer dizer exatamente o que afirma. Israel significa Israel, a Igreja significa a Igreja, uma pedra significa uma pedra, uma estrela significa uma estrela, a não ser quando o contexto ou a estrutura indique claramente que se trata de um símbolo ou figura, e não devem ser tomados literalmente. O bom senso sempre indicará quando alguma coisa deve ser considerada literalmente, ou deve ser tomada simbolicamente[3].
A afirmação de DeHaan, feita no intuito de defender o princípio da literalidade leva a uma conclusão simples: se Israel é Israel e a Igreja é a Igreja, na Bíblia, no mesmo sentido em que uma pedra é uma pedra e uma estrela é uma estrela; se se puder provar que, em algumas passagens, uma pedra não significa uma pedra e uma estrela não significa uma estrela, então ficará provado também que igualmente em algumas passagens Israel pode não significar Israel e Igreja pode não significar a Igreja, no sentido em que entendem os dispensacionalistas. Isso provado, terá ruído todo o fundamento sobre o qual repousa a teoria da separação absoluta entre Israel e a Igreja e o princípio da literalidade absoluta das profecias.
A forte ênfase na interpretação literal da Escritura dada pelos Dispensacionalistas não leva em conta que essa mesma Escritura freqüentemente interpreta outras partes da Escritura em uma forma espiritual, não literal. Assim por exemplo, quando Amós 9:11-12 fala "tornarei a levantar o tabernáculo caído de Davi"; Tiago, em Atos 15:15-20, nos diz que esta profecia se cumpriu não com a restauração terrena de Israel, mas na incorporação dos gentios na Igreja. Quando Deus promete a Davi que "confirmarei o trono do seu reino para sempre" (2 Samuel 7:13), encontramos o cumprimento desta promessa, não na restauração terrena do trono de Davi, mas na vinda de Cristo, "da descendência de Davi segundo a carne" (Romanos 1:3;Atos 2:29-32).
Essa enfâse na interpretação literal leva a outra premissa que o dispensacionalista resume na conhecida frase “Israel é Israel, Igreja é Igreja” e nos projeta para a análise do terceiro ponto desse estudo. O dispensacionalista considera a Igreja como uma “intercalação” temporária no plano de Deus. Com isto se quer dizer que todas as profecias feitas no Antigo Testamento, com relação a Israel, deverão se cumprir literal e incondicionalmente em Israel, como nação ou povo terreno. Nenhuma promessa do Antigo Testamento, portanto, se refere à Igreja, pois isto viola o princípio da literalidade. E esse conceito vai além, pois cria dois povos distintos na Terra atendidos por planos divinos diferentes. Em resposta a essa idéia o Novo Testamento mostra diversas referências mostrando que a Igreja é o novo Israel, ou seja, uma continuação do povo da antiga aliança que agora é restaurado por uma nova aliança. A apologia mais forte nesse sentido vem do apóstolo Paulo em Romanos, capítulos 9 a 11. Paulo mostra essa união entre Igreja e Israel utilizando a figura do enxerto de novos ramos de oliveira (gentios) na oliveira do Israel de Deus (Rm 11:17-24). Sendo assim a Igreja não se constitui uma nova oliveira; não existem duas oliveiras. Outras passagens que reforçam a idéia da Igreja ser o Novo Israel são Gl 6:15-16 “ Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão, nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura. E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus.” e Gl 3:28-29 “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.” Neste último o conceito do Novo Israel é reforçado no pressuposto de que todos que pertençam a Cristo são agora descendentes de Abraão e herdeiros das promessas, descendentes claro não no sentido natural, mas no sentido espiritual (e mais um exemplo de que a literalidade não é o único método da interpretação bíblica).
O último ponto de análise foca na escatologia. Dentro do processo escatológico os evangélicos crêem na ressurreição, na segunda vinda de Cristo, no julgamento final, na criação do novo céu e nova terra, porém tais dogmas não são vistos cumprindo-se no mesmo formato. Existem basicamente quatro linhas de interpretação. Os dispensacionalistas definem uma dessas quatro que é chamada de pré-milenista dispensacionalista. As outras interpretações são a amilenista, a pós-milenista e a pré-milenista histórica.
Os amilenistas tem uma interpretação não-literal sobre o milênio do livro Apocalipse capítulo 20; portanto o reino de Jesus Cristo já se faz presente entre nós através do Espírito Santo, da sua Palavra e do governo da sua Igreja. A tribulação é algo que experimentamos na presente era. A segunda vinda de Cristo (parousia) é um acontecimento único com os eventos da ressurreição de todos ( sem distinção entre Israel e Igreja) e o julgamento final. Alguns defensores dessa corrente são: L.Berkhof, O.T.Allis, G.C.Berkhouwer, Willian Hendricksen, Abraham Kuyper, Leon Morris e Anthony Holkema.
Os pós-milenistas também interpretam de forma não-literal o milênio. Para esse grupo o reino milenar será estabelecido através da pregação e da evangelização que levará a humanidade a um período longo de paz e então seguirá a segunda vinda de Cristo tendo aí uma mesma posição da interpretação amilenista quanto a ressurreição, julgamento final, tribulação e sobre Israel e igreja. Alguns de seus defensores são: Agostinho, Loraine Boettner, A Hodge, Charles Hodge, A. H. Strong, B.B. Warfield, Joaquim de Fiore, Daniel Whitby, James Snowden.
Os pré-milenistas se dividem em dois grupos principais: os pré-milenistas históricos (como Irineu, Justino Mártir, Tertuliano, G.E.Ladd, A.Reese e M.J.Erickson) e os pré-milenistas dispensacionalistas (como L.S.Chafer, J.D.Pentecost, C.C.Ryrie, J.F.Walvoord e Scofield). O Pré-milenismo histórico, também conhecido como Pré-milenismo Clássico ou Não–Dispensacional, defende que Jesus voltará e reinará na Terra estabelecendo um período de paz e justiça. Define também que a atual Igreja é o Israel espiritual, mas Deus restaurará a nação israelita, pois para ela há promessas no milênio. Embora haja uma interpretação literal sobre o milênio de Apocalipse, os pré-milenistas históricos defendem também que o reino de Cristo é tanto presente com Cristo reinando nos céus, quanto futuro com Cristo reinando na terra.
Os defensores do Pré-milenismo Dispensacional ensinam que a segunda vinda de Cristo será realizada em duas etapas. A primeira etapa relaciona-se com o arrebatamento da igreja e após um período de 7 (sete) anos da grande tribulação, Jesus retornará com a Igreja para reinar durante mil anos (literal). Outras características são: os três momentos em que ocorrem o processo de ressurreição (a primeira no arrebatamento da Igreja, a segunda no momento da segunda vinda de Jesus e a última no final do milênio) e a distinção feita entre a nação de Israel e a Igreja com promessas particulares para cada um.
A argumentação sobre o arrebatamento da Igreja é uma distorção da doutrina escatológica. Nenhum texto bíblico permite que se chegue a tal conclusão, mas apresenta sim claramente a promessa de duas vindas sem etapas intermediárias (a primeira já cumprida com a morte de Cristo). Hebreus 9:27-28-“E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo, assim também Cristo, oferecendo-se uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação.” deixa nítido que a segunda volta não terá fases intermediárias. Além disso, essa teoria do arrebatamento cria uma segregação entre a igreja e o plano de Deus e que parece mais defender a idéia de que a igreja não pode participar do reino davídico que será restaurado. Outro ponto a ser refutado é o que diz respeito a esse arrebatamento da igreja de forma secreta, desconhecido dos não-cristãos, o que contradiz I Tessalonicenses 4:16-17 - “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor“. Não será discutido aqui as outras posições doutrinárias sobre a salvação, pois a escatologia merece um estudo a parte e mais aprofundado, o foco é apenas nas questões dispensacionalistas.
Portanto, ao falarmos em Dispensação é logico que a história possui períodos distintos na relação de Deus com o homem e cada etapa da revelação é progressiva, mas o que não podemos fazer é estabelecer que tais períodos são tentativas divinas de uma redenção do homem e que foram mal sucedidas, abrindo espaço para a idéia de atribuir a Deus o fracasso de tais tentativas. Afirmações de que a Igreja é apenas um tropeço na missão de Jesus para com os judeus abrindo uma mera oportunidade para os gentios é mais uma vez dizer que Deus fracassou. Mas o que encontramos na Bíblia é justamente o contrário, pois o plano de Deus desde o princípio já é citado em Gênesis 22:18 - E em tua descendência (Abraão) serão benditas todas as nações da terra.
[1] G.E. Gunn, op. cit., p. 124.
[2] Ibid., pp. 124-125.
[3] M.R. DeHaan, op. cit., p. 18.
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Conselho Federal Teologia |
Convenção Batista |
Procon
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"Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei." (Mateus 11:28)
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