A Doutrina da Justificação
  A Doutrina da Justificação faz parte da base da soteriologia e é totalmente cristológica. Para Lutero ela é o âmago da soteriologia e a soteriologia o âmago de toda a teologia[1]. Entretanto para definir seu conceito precisamos confrontar dois apóstolos: Paulo e Tiago. A justificação é uma doutrina extraída dos escritos paulinos, porém Tiago ajuda a complementar o objeto primordial da justificação: a fé em Jesus Cristo.
  Paulo afirma em Efésios 2:8-9: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.” e em Galatas 2:16: “Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada”. Já na carta de Tiago capítulo 2 versículo 24 temos: “Vedes então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé.”. Numa análise superficial, as declarações de Paulo e Tiago parecem antagônicas. Uma contradiz a outra. Mas nesse caso a Bíblia estaria se contradizendo. Esse é o caminho errado da interpretação, pois um dos postulados hermenêuticos é que a Bíblia não pode se contradizer, uma vez que é a palavra de Deus. Portanto o caminho que devemos tomar na avaliação de tais textos não é o do confronto, mas sim o da conformidade, da complementação. Essa análise será iniciada voltando até a época da reforma protestante, pois é aí que Lutero vai expor a base da doutrina da justificação: o homem é justificado pela graça divina mediante a fé somente. Essa posição luterana foi uma reação à doutrina católica medieval.
  De acordo com a Igreja Católica, a justificação é o processo gradativo pelo qual o pecador se torna interiormente justo ao receber a justiça do próprio Deus, adquirida mediante o batismo, a fé, obras de caridade e penitências. É portanto um longo processo iniciado com a graça batismal e se aperfeiçoa através dos sacramentos e penitências. Esse processo para os católicos medievais poderia se estender até o purgatório. Lutero vivia esse processo em sua vida: Tinha se batizado, fazia penitências no mosteiro onde ingressou, confessava-se várias vezes por dia, autoflagelava-se, jejuou até quase morrer de fome e dormia no chão frio de pedra. Porém Lutero não se conformava com tal fórmula uma vez que acreditava que “o homem peca mesmo depois de dar o melhor de si, até em suas melhores obras”. O apóstolo Paulo já nos diz isso em Rm 7:18: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem”.
  Lutero entendeu que como pecador que era não conseguiria jamais por seus próprios méritos alcançar a justificação diante de Deus. Baseado nos estudos de Romanos, Lutero descobriu que essa justiça é imputada no pecador através de Cristo. Atos de penitências não fazem diferença nenhuma. A justiça foi mérito de Cristo e nós participamos dessa justiça simplesmente ao crer em Jesus. Nunca seremos proprietários dessa justiça pois ela pertence a Cristo, mas ela é imputada ao pecador mediante a fé em Cristo Jesus. Por isso somos pecadores, continuamos pecadores, mas como novas criaturas justificadas em Cristo, já não nos agrada mais pecar.
  O processo de redenção inicia com o chamado do evangelho nos convidando a aceitar Cristo para nossa salvação e perdão dos pecados. Deus então pela sua graça nos concede a regeneração que é o despertar para a vida espiritual e que nos leva a conversão verdadeira aceitando Jesus como nosso salvador. Deus então responde a nossa fé e declara-nos perdoados, ou seja, justifica-nos declarando-nos justos diante dele. A partir daí o homem inicia o processo de santificação buscando o aperfeiçoamento de sua vida cristã. A justificação tem portanto o caráter jurídico de declarar a pessoa justa diante de Deus (o termo grego empregado no Novo Testamento é dikaioõ que tem seu sentido mais comum “declarar justo”).
  Agora podemos retornar a controvérsia entre Paulo e Tiago e a questão das obras ( se é que ela existe de fato). Ambos citam como exemplo Abraão para falar desse processo da justificação. Paulo dedica o capítulo 4 de Romanos para declarar que Abraão foi justificado porque creu: Rm 4:3 “Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.”. No versículo 5 continua: “Mas, àquele que não pratica [ obras da Lei] , mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.”. No versículo seguinte o apóstolo explica que Abraão recebeu a justiça ainda quando era incircunciso, ou seja, não estava debaixo da Lei. Em Tiago 2:21-23 o autor escreve: “Porventura o nosso pai Abraão não foi justificado pelas obras, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaque? Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada. E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus”.
  O que temos que compreender é que Paulo e Tiago estão falando de “obras” em contextos diferentes. Quando Paulo fala que não seremos justificados pelas obras ele se refere as “obras da Lei” que é todo o aparato das leis judaicas prescritas e que se referem principalmente as obrigações para com o templo judeu, o sacerdócio, sacrifícios, ritos de purificação, restrições alimentares, etc. Já Tiago relata que a fé sem ação (boas obras) é morta. As boas obras são parte da fé. Portanto é nessa fé em Cristo, que pressupõe obediência aos seus mandamentos onde o maior de todos é amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, que o homem é justificado. Tanto é que Paulo concorda com Tiago pois fala de boas obras também: Rm 2:6-7 - “O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção”, 1 Co 3:13-15 - “A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão. salvo, todavia como pelo fogo.” e 2 Co 9:8 - “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra”.
  Portanto Paulo não contradiz Tiago, pois o texto paulino separa “obras da Lei” de “boas obras” e por outro lado Tiago também não contradiz Paulo, pois em Tiago 2:23 cita: “E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus.”. Pela fé Abraão foi justificado (concordando com Paulo que somente pela fé somos justificados) e pela obras Abraão mostrou-se justificado (a fé em ação através das boas obras mostra que somos novas criaturas justificadas em Cristo).
  [1] Olson, Roger, História da Teologia Cristã. Editora Vida Acadêmica.
Bibliografia
Olson, Roger, História da Teologia Cristã. Editora Vida Acadêmica.
Dunn, James D. G., A teologia do apóstolo Paulo. Editora Paulus.
Dicionário Bíblico Universal. Editora Vida Acadêmica.
Cerfaux, Lucien. O Cristão na Teologia de Paulo. Editora Teológica.