Estudos sobre a Bíblia - Parte IV (final): Os Manuscritos da Bíblia
Os Manuscritos da Bíblia.
  A Bíblia é o livro mais lido, traduzido e distribuído do mundo. É encontrada atualmente em mais de 2.000 línguas diferentes. Estima-se que a primeira tradução foi elaborada entre 200 a 300 anos antes de Cristo pelos judeus que viviam no Egito e não compreendiam mais a língua hebraica. O Antigo Testamento foi traduzido para o grego e ficou conhecido como a Septuaginta ou Tradução dos Setenta. Esta tradução do Antigo Testamento foi utilizada em sinagogas de todas as regiões do Mediterrâneo e também pelos primeiros discípulos de Jesus. Outras traduções começaram a ser realizadas por cristãos novos nas línguas copta (Egito), etíope (Etiópia), siríaca (norte da Palestina) e em latim. Por haver tantas versões parciais e insatisfatórias em latim, no ano 382 d.C., o bispo de Roma Dâmaso nomeou o grande exegeta Jerônimo para fazer uma tradução oficial das Escrituras. Com o objetivo de realizar uma tradução de qualidade e fiel aos originais, Jerônimo foi à Palestina, onde viveu durante 20 anos. Estudou hebraico com rabinos famosos e examinou todos os manuscritos que conseguiu localizar. Sua tradução tornou-se conhecida como "Vulgata". Neste formato, a Bíblia difundiu-se por todas as regiões do Mediterrâneo, alcançando até o Norte da Europa. Na Europa, os cristãos entraram em conflito com os invasores godos e hunos, que destruíram uma grande parte da civilização romana. Em mosteiros, nos quais alguns homens se refugiaram da turbulência causada por guerras constantes, o texto bíblico foi preservado por muitos séculos, especialmente a Bíblia em latim na versão de Jerônimo. Na Alemanha, João Gutemberg desenvolveu em 1454 a imprensa de tipos móveis e seu primeiro livro publicado foi a Bíblia em latim em 1456. Esta nova arte foi utilizada para imprimir Bíblias em seis línguas antes de 1500 - alemão, italiano, francês, tcheco, holandês e catalão; e em outras línguas até meados do século XVI - espanhol, dinamarquês, inglês, sueco, húngaro, islandês, polonês e finlandês. Finalmente as Escrituras realmente podiam ser lidas na língua destes povos. Mas essas traduções ainda estavam vinculadas ao texto em latim. No início do século XVI, manuscritos de textos em grego e hebraico, preservados nas igrejas orientais, começaram a chegar à Europa ocidental. Havia pessoas eruditas que podiam auxiliar os sacerdotes ocidentais a ler e apreciar tais manuscritos. Uma pessoa de grande destaque durante este novo período de estudo e aprendizado foi Erasmo de Roterdã. Ele passou alguns anos atuando como professor na Universidade de Cambridge, Inglaterra. Em 1516, sua edição do Novo Testamento em grego foi publicada com seu próprio paralelo da tradução em latim. Assim, pela primeira vez estudiosos da Europa ocidental puderam ter acesso ao Novo Testamento na língua original. Nos séculos XVIII, XIX e XX as descobertas de novos manuscritos e o aumento do conhecimento das línguas originais bíblicas ajudou na compilação de textos gregos e hebraicos mais fiéis aos textos originais.
1 - A Arqueologia Bíblica
  Várias descobertas arqueológicas tem proporcionado um melhor entendimento das Escrituras Sagradas. Os manuscritos mais antigos que existem de trechos do Antigo Testamento datam de 850 d.C. Existem, porém, partes menores bem mais antigas como o Papiro Nash do segundo século da era cristã. A maior descoberta, entretanto, ocorreu em 1947, quando um pastor beduíno, que buscava uma cabra perdida de seu rebanho, encontrou por acaso os Manuscritos do Mar Morto, na região de Jericó. Durante nove anos vários documentos foram encontrados nas cavernas de Qumrân, no Mar Morto, constituindo-se nos mais antigos fragmentos da Bíblia hebraica que se têm notícias. Escondidos ali pela tribo judaica dos essênios no século I, nos 800 pergaminhos, escritos entre 250 a.C. a 100 d.C., aparecem comentários teológicos e descrições da vida religiosa deste povo. Estes documentos tiveram grande impacto na visão da Bíblia, pois fornecem espantosa confirmação da fidelidade dos textos massoréticos aos originais. As descobertas arqueológicas, como a dos manuscritos do Mar Morto e outras mais recentes, continuam a fornecer novos dados aos tradutores da Bíblia. Elas têm ajudado a resolver várias questões a respeito de palavras e termos hebraicos e gregos, cujo sentido não era absolutamente claro. Antes disso, os tradutores se baseavam em manuscritos mais "novos", ou seja, em cópias produzidas em datas mais distantes da origem dos textos bíblicos. O estudo intensivo de mais de 3.000 manuscritos do N.T. grego, datados do segundo século da era cristão em diante, tem demonstrado que o N.T. foi notavelmente bem preservado em sua transmissão desde o terceiro século até agora. Nem uma doutrina foi pervertida.
2 - Manuscritos do Antigo Testamento
  As fontes primárias das Escrituras hebraicas são manuscritos grafados à mão, geralmente escritos em peles de animais ou papiros. A deterioração natural desses materiais deixou a maioria dos antigos manuscritos reduzida à fragmentos de difícil leitura. As fontes secundárias, tais como traduções, primeiras versões impressas, também trazem dificuldades: erros acidentais, erros intencionais e degeneração natural.
Até pouco tempo atrás os manuscritos usados como base para o texto hebraico eram da época medieval. Eram textos resultantes do trabalho de copistas que eram eruditos judeus conhecidos pelo nome de massoretas (500-900 d.C.) e que foram responsáveis pela introdução dos pontos vocálicos no texto tradicional consonantal hebraico que não tinha vogais. Esse texto ficou conhecido como Texto Massorético. O manuscrito massorético mais antigo é o códice Cairense (895 d.C.) que inclui tanto os livros dos profetas anteriores (Josué, Juízes, Samuel e Reis) quanto os profetas posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os 12 profetas menores). Outro manuscrito massorético importante é o códice Alepo datado da primeira metade do século X , destruído parcialmente em 1947 e que continha todo o A.T. Outro manuscrito importante é o códice de Hillel do rabino Hillel ben Moisés ben Hillel datado de aproximadamente 600 d.C. e tido como um manuscrito bastante exato usado para revisão de outros textos.
Apesar da exatidão dos manuscritos massoréticos, fontes mais próximas da época dos textos originais faziam-se necessárias para corroborar os mesmos. Tal fato veio a acontecer apenas nas décadas de 1940 e 1950, quando foram descobertos em Vadi Qumrân os manuscritos mais antigos da Bíblia hebraica, conhecidos como rolos do Mar Morto. Considerados como um dos maiores achados arqueológicos de todos os tempos, estes manuscritos datam do século III ao I a.C. O texto mais antigo é um fragmento do livro de Êxodo de cerca de 250 a.C. O rolo de Isaías completo data de 100 a.C.
Em função da importância de tal descoberta, arqueólogos e beduínos empreenderam diversas buscas por mais manuscritos. No início de 1949, G. Lankester Harding, diretor de antiguidades para o Reino da Jordânia e Roland G. De Vaux da Escola Bíblica Dominicana de Jerusálem, escavaram a caverna I onde ocorreu a descoberta inicial dos rolos e até hoje 11 cavernas dentre centenas exploradas, revelaram perto de seiscentos manuscritos, dos quais duzentos são bíblicos. Todos os livros do A.T excetuando-se Ester estão representados, além de obras apócrifas e pseudo-epígrafas.
Os rolos do Mar Morto foram peças fundamentais para atestarem a exatidão do texto massorético e mostrar o trabalho cuidadoso dos copistas judeus na preservação das Escrituras. Havia pouco material antes da descoberta dos rolos do Mar Morto além do texto massorético: O papiro Nash adquirido no Egito por W. L. Nash em 1902, datado entre 150 a.C. e 68 d.C. contendo um cópia danificada dos Dez Mandamentos (Ex. 20; 2-17) e partes de Deuteronômio (5;6-21 e 6;4-29); fragmentos da Genizah do Cairo encontrados em uma antiga sinagoga do Cairo dentro de uma genizah (depósito de manuscritos usados) no Egito datados dos secúlos VI ao VIII d.C.; uma cópia do Pentateuco Samaritano encontrado em 1616 d.C.; os targuns aramaicos que surgiram da necessidade de traduzir o hebraico para o aramaico visto que o idioma comum dos judeus durante o período pós-exílico era o aramaico; a Peshita ou versão Siríaca usada pela Igreja Aramaica Oriental Siríaca e datado do século I d.C. Outra grande fonte usada era a Septuaginta (a versão grega do A.T.) cuja tradução iniciou no século III a.C.
3 - Manuscritos do Novo Testamento
  Os primeiros manuscritos do Novo Testamento que chegaram até nós são algumas das cartas do Apóstolo Paulo que foram preservadas pelas igrejas a que eram endereçadas. Não tardou para que esses manuscritos fossem largamente copiados em função da necessidade da expansão do evangelho de Jesus. Assim as cartas de Paulo passaram a ter grande circulação. Essa mesma necessidade resultou na escrita dos Evangelhos que, na medida em que as igrejas cresciam e se espalhavam, passaram a ser muito solicitados. Outras cartas, exortações, sermões e manuscritos cristãos similares também começaram a circular. O mais antigo fragmento do Novo Testamento hoje conhecido é um pequeno pedaço de papiro escrito no início do Século II d.C. Nele estão contidas algumas palavras de João 18.31-33, além de outras referentes aos versículos 37 e 38. Nos últimos cem anos descobriu-se uma quantidade considerável de papiros contendo o Novo Testamento e o texto em grego do Antigo Testamento.
A reconstrução dos textos originais do N.T. é realizada somente através de cópias, uma vez que não existe nenhum texto original (autógrafo). Os vários papiros disponíveis são datados do final do século II ao início do século IV, dos quais os mais importantes são: Os papiros de Oxirrinco descobertos por Grenfell e Hunt em 1898 no sítio arqueológico de Oxirrinco no Egito com mais de 35 manuscritos contendo fragmentos do N.T. como o P1 (Mt 1), o P5 (Jo 1;16), o P13 (Hb2-5;10-12) e o P22 (Jo 15-16). Os papiros de Chesser Beatty, conhecidos assim pelo nome de seu proprietário, foram comprados de um negociante do Egito na década de 1930. Três manuscritos dessa coleção são de grande valor e são designados como P45 do século II contendo porções de todos os quatro evangelhos e Atos; o P46 (fim do século I e início do século II) contendo quase todas as epístolas paulinas e Hebreus e o P47 (século III) contendo Ap 9-17. Os papiros de Bodmer comprados por M. Martin Bodmer, também de um negociante do Egito, durante as décadas de 1950 e 1960 contém três papiros importantes na coleção – o P66 (175 d.C.) contendo quase todo o evangelho de João, o P72 ( século III) contendo 1 e 2 Pedro e Judas e o P75 (200 d.C.) contendo grandes porções de Lucas 3 e João 15.
O códice Sinaítico (350 d.C.) foi descoberto por Constantino von Tischendorf no mosteiro de Santa Catarina localizado próximo do monte Sinai e contém todo o N.T. Muitos outros códices, tais como o Códice Vaticano (anterior ao Sinaítico), Códice Alexandrino ( séc. V), Códice Ephraemi Rescriptus (séc V), Códice Bezae (séc. V) e Códice Washington (séc V), ajudam a traçar a história da recuperação do texto do N.T. Embora exista esta variedade de manuscritos, podemos estar confiantes da veracidade do texto bíblico pela ação do Espírito Santo de Deus na preservação de sua palavra. Conforme o renomado paleógrafo Sir Frederic Kenyon escreveu: “O cristão pode pegar a Bíblia inteira em suas mãos e afirmar, sem temor ou hesitação, que está segurando a verdadeira Palavra de Deus, transmitida ao longo dos séculos, de geração em geração, sem nenhuma perda essencial”[1].
4 - As Línguas Originais da Bíblia
  As duas principais línguas originais bíblicas são o hebraico e o grego. O hebraico pertence à família linguística semítica, já o grego pertence a família indo-européia.
O hebraico é um dos vários dialetos cananeus que incluíam o fenício, o ugarítico, o moabita e o amonita. O dialeto cananeu fazia parte do grupo linguístico denominado semítico que englobava também o árabe, o etíope, o acadiano, o aramaico e o siríaco. O hebraico possui 22 consoantes sem o uso de vogais que eram entendidas pelo leitor através do contexto ou da tradição. Assim no momento da leitura, o leitor fornecia as vogais necessárias para o entendimento do texto. As vogais foram introduzidas mais tarde, já no século V d.C. pelos massoretas uma vez que após o exílio babilônico iniciado em 586 a.C. começou um processo da substituição da língua hebraica pela aramaica, processo esse que teve ainda maior contribuição com a destruição de Jerusalém em 70 d.C. pelos romanos. A língua hebraica tornou-se quase morta e a pronúncia e a compreensão originais das palavras havia-se perdido, surgindo assim a necessidade de se estabelecer as vogais na escrita.
O aramaico é considerado uma língua secundária do A.T. Trechos em aramaico são encontrados nos livros de Daniel (Dn 2:4b – 7;28) e Esdras (Ed 4;8 – 6;18 e 7;12-16). Gênesis 31:47 - “E chamou-o Labão Jegar-Saaduta; porém Jacó chamou-o Galeede” faz referência ao uso do hebraico por parte de Jacó e do aramaico por parte de Labão que era arameu. No século VIII a.C., os representantes do rei Ezequias pediram que os porta-vozes do rei assírio Senaqueribe lhes falassem em aramaico (2 Rs 18:26). Já na época do império persa (após a queda da Babilônia) o aramaico tornou-se a língua internacional para as transações comerciais e durante o cativeiro, os judeus certamente à adotaram, ficando o hebraico limitado aos doutores e líderes religiosos. O aramaico continuou sendo usado pelo povo judeu nos períodos grego e romano. As Escrituras foram traduzidas para o aramaico em coleções conhecidas como targuns.
O grego é um língua rica para o uso da comunicação, com vocabulário e estilo que permitia descrever fenômenos e não simplesmente narrar histórias. O antecedente do grego antigo aparece em documentos micênicos. Com a invasão dos dórios (1200 a.C.) a civilização e a escrita micênica desapareceram. Já no século VIII a.C. surgiram escritos gregos cujo alfabeto base era emprestado dos fenícios. No início o grego era escrito da direita para a esquerda como as línguas semíticas orientais (hebraico , árabe, etc), depois passou a adotar um padrão que ia de um lado para o outro e finalmente da esquerda para a direita. Durante o período arcaico (séc. VIII a.C. até VI a.C.) existiam os dialetos dórico, jônico, acaico e eólico. No período clássico (séc. V e IV a.C.) a cultura grega atingiu o ápice literário e artístico. A cidade de Atenas ia alcançando o controle cultural e político e o dialeto ático também ia dominando assim o período clássico. Com as conquistas macedônicas o grego ático combinado com o jônico tornou-se a língua internacional do Mediterrâneo Oriental. A partir de Alexandre, o Grande, a cultura grega fora grandemente difundida surgindo o grego coiné (comum), mais adaptada ao linguajar simples e popular. O grego subsistiu ao Império Romano como a língua do comércio e da diplomacia. Essa supremacia também esteve presente na religião com a tradução das Escrituras hebraicas para o grego a partir do século III a.C. na conhecida Septuaginta. O Novo Testamento também mostra essa força do grego. Apesar da maioria dos autores do N.T. terem sido judeus, todos eles escreveram em grego coiné.
Bibliografia
  Comfort, Philip Wesley. A origem da Bíblia. Editora CPAD.
[1] – Our Bible and the Ancient Manuscripts ( Nossa Bíblia e os antigos manuscritos), p55.